sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Chapéu de Sol - Serra da Graciosa

Por Getúlio R. Vogetta

Primeira pernada de 2015. Nada melhor para iniciar o ano montanhístico do que uma jornada a um lugar pouco conhecido, pouco frequentado e ainda não visitado...
Caminhar na região de transição entre as Serras do Ibitiraquire e da Graciosa é sempre uma aventura de responsabilidade e recompensas. Envolve boas doses de conhecimento de orientação além de abnegação e resiliência contra os diversos infortúnios, especialmente no verão. Além do calor intenso, que exige um abastecimento de água muito além do normal, mosquitos e butucas gigantes parecem saídos de filmes de ficção científica e mesmo com bons repelentes não deixam o caminhante em paz. Taturanas, vespas e formigas completam a voraz fauna insetívora da área, impondo respeito a quem deseja adentrar naqueles domínios.
da esquerda pra direita em pé: Getúlio, Marcio, Rafael, Daniel, Sergio, Otávio. agachado Edinaldo

O sul do Ibitiraquire

Ao fundo o PP


O Morro Chapéu de Sol é o nosso objetivo principal do dia. Modesto, apenas 935m de altitude na carta topográfica. No entanto sua posição é estratégica, encravado numa das encostas do sinuoso e profundo Vale do Rio Mãe Catira.
Saímos cedo de Curitiba (não tanto quanto gostaríamos) e sebo nas canelas. Sem trilha pronta para seguir, sabemos apenas onde está o nosso objetivo no mapa e temos um traçado aproximado planejado em casa pelas curvas de nível da carta topográfica por entre os vales e matas da região. Em seu encalço um seleto pelotão da AMC - Associação Montanhistas de Cristo: Eu, Otávio, Daniel, Edinaldo, Rafael, Márcio e o Antônio Sérgio, todos conhecidos de outras inúmeras aventuras pelas nossas serras.
A bela Graciosa

Ele, o "Marco"

Galera limpinha...

Nos atrapalhamos um pouco ao iniciar o trajeto. Do Marco 22 partem vários ramais de trilhas para todas as direções e inicialmente buscamos seguir alguma já consolidada. Em dúvida e sem esperanças de encontrar algo mastigado, logo abandonamos um dos ramais batidos e começamos a abrir no peito uma passagem na direção que pretendíamos seguir. Logo nos vemos em cima de um morrote de onde é possível divisar o cume do nosso objetivo. Algumas voltas mais, barranco abaixo, encontramos um outro ramal de trilha bem batida que nos leva na direção desejada, passando por um belo riacho, depois do qual a trilha desaparece novamente. Vamos que vamos, nada que um pouco de vontade e algumas lambidas de facão não resolvam.
Pelo mato

Janela

Eu acho que é por aqui...

riozinho

Os desafios nos movem, são nosso combustível em meio à umidade e o calor da exuberante mata atlântica. Logo nos deparamos com densos bambuzais, que de início tentamos em vão contornar, apenas para encontrar outros mais adiante. Logo nos convencemos que não adianta enrolar, vamos ter que desembainhar as espadas e partir prá luta. Um a um os bambuzais são rasgados a facão e, após algumas voltas desviando de terrenos desfavoráveis atingimos a linha de crista que nos levaria ao nosso objetivo final. No entanto, quando próximo ao cume do 895m, somos alvo de um ataque de um enxame de vespas ensandecidas que nos tocam em debandada encosta abaixo.
Alguns pensam em desistir, ainda sob o efeito das picadas. Outros pensam no que fazer. Passados alguns minutos, resoluto sentencio "ao cume e avante!" Não sairia derrotado dali. Faltavam pouco mais de 300m até o objetivo. Traçamos uma rota alternativa no GPS e tocamos em frente.
Parece pouco, mas na floresta as distâncias são bastante relativas e mesmo nestes poucos metros ainda restavam um pequeno vale e duas encostas a vencer. Numa delas, logo de cara, somos testados por um tapete de formigas que vitimam mais alguns dos combatentes menos afortunados. Logo, galgamos os metros finais que nos separam do cume que começamos a perseguir quase 5 horas antes quando pisamos no Marco 22.
Cume!
Pet de Cume

Visual de cima da árvore

Hora do lanche

Hora da selfie!

AMC was here.

Na verdade uma discreta e diminuta clareira cercada de mato por todos os lados e com uma pequena janela de visual em meio à densa vegetação, aberta por uma árvore apodrecida e tombada, de onde se equilibrando precariamente era possível vislumbrar um pequena pedaço do quadrante nordeste do horizonte e outro pequeno trecho do quadrante sul em meio a galhos e folhas da densa vegetação.
Objetivo atingido. Guerreiros cansados, tanto pelo calor insuportável quanto pela peleja contra a quiçassa e insetos pelo caminho. Pequena pausa para contemplações, lanche e contabilizar o que sobrou da água para o retorno. Trovões ribombam sobre o Ciririca e sobre os Agudos, ali perto. Uns pensam nos raios, outros nos desafios que nos aguardariam no retorno. Outros contemplam novos desafios no horizonte para outras pernadas...
Na tentativa de resgatar a mensagem deixada por outros que ali estiveram antes de nós, numa pequena garrafa PET pendurada numa árvore, verificamos que o papel usado estava se desmanchando com a umidade condensada no interior da garrafa. Providenciamos uma mensagem substitutiva numa página de caderneta, bem curta e embalada em um saco plástico para que resista por talvez mais uns 2 ou 3 anos, até que outro grupo de malucos deseje voltar e o consiga fazer com sucesso.
A volta

Tava quente

Cabana perto da estrada

com pia e água "encanada"

o depois

Chapéu de sol em primeiro plano

Bora prá baixo. A chuva que prometia nos varrer daquele cume passou ao longe e agora nosso pensamento se fixa nas formigas e nas vespas que podíamos encontrar no caminho de volta, primeiro sonhando com a água gelada de um riacho que ainda estava a quase duas horas de caminhada... No retorno nada de formigas e nem das vespas. A água do regato, no entanto, nos deleita a goles fartos, gelada e límpida, primeiro pura mesmo, depois sob a forma de isotônicos e sucos que a ela misturamos. Todos, sedentos, se fartam do líquido precioso em uma longa e merecida pausa.
Refeitos, partimos para o final da jornada, agora por uma trilha larga, batida e barrenta até a fronteira da civilização, agora sonhando com pastel e Coca-Cola. Não demora muito e avistamos sinais dos predadores de duas patas: uma perene cabana de palmiteiros quase nas margens da Estrada da Graciosa. Logo pisávamos novamente no calçamento de nosso ponto de partida. Findava a aventura.
Missão cumprida. Todos, entre sedentos, arranhados e picados sobreviveram e logo estarão prontos para novas investidas por aquelas e outras matas da região em busca de novos cumes, de novos desafios e, sobretudo, da profícua convivência com seus companheiros de muitas jornadas, com mais uma boa história para contar. E que venham outras!

Selva!

Dados do percurso:
Morro Chapéu de Sol - limite setentrional da Serra do Ibitiraquire - altitudes: oficial - 935m, medição no GPS - 990m. Coordenadas: (22J) 712092,156E, 7198124,529N.

Distância a partir do Marco 22: 2,8 Km