sábado, 23 de novembro de 2013

Travessia Bolinha-Graciosa

Também conhecida como Ciririca-Graciosa (por passar pelo K2 paranaense) ou Terra Boa-marco 22 (por começar neste bairro de Campina Grande do Sul e terminar no conhecido marco da estrada da Graciosa) a travessia Bolinha-Graciosa já foi relatada como “a travessia mais difícil do Brasil”, por ter um longo trecho sem trilhas e grandes caminhadas por leito de rio. Sua maior dificuldade era a navegação e relevo do local. Era, pois como verão mais a frete isso mudou...
Pois foi esta nossa empreita no feriado da república, e que desde o final de maio estava entalada na garganta, pois no feriado de Corpus Christi abortamos a missão devido a forte chuva que caiu durante a madrugada do dia do embarque. Desta vez nem a previsão de chuva a partir do segundo dia nos intimidou, e na sexta-feira de madrugada já estávamos na estrada rumo à chácara da Bolinha, lugar conhecido da serra do mar paranaense aonde tem início as trilhas para as montanhas da parte sul do Ibitiraquire (Camapuã, Tucum e Ciririca).
As 6:40hs iniciamos a pernada: eu, Zeca, Serginho, Maicon e Rafael Campestrini. O tempo estava bom, apesar de ser final de primavera reinava uma atmosfera de outono. Um friozinho muito bem vindo para encarar a primeira parte da caminhada: do Bolinha até o Colina Verde, pequena elevação plana e coberta de capim em frente (ou seria atrás?) do Agudo Cotia. No meio do caminho o Ciririca, montanha de 1705m de altitude e conhecida como o “k2 Paranaense”, por não ser a mais alta mas uma das mais difíceis, devido à longa trilha de aproximação.
o início

bifurcação Tucum-Ciri

Cachoeira do Professor

Tá aí o bicho!

Última Chance

A trilha segue por dentro da mata, pelas encostas de Camapuã e Tucum. O papo é bom e a companhia melhor ainda, então a trilha passa rápido: bifurcação Tucum/Ciririca, Poço das Fadas, Pedra da Corda, Cachoeira do Professor E Última Chance são vencidos sem grandes dificuldades. As 15:00hs chegamos no Ciri,ou melhor, o Zeca, Maicon e Rafael chegaram, eu e Serginho vamos mais devagar e chegamos só 15:20hs. Pausa para um lanche e descanso da árdua subida da já famosa Rampa do Ciririca. Lá em cima encontramos a Ana Wanke, que estava atacando a montanha.
16:10hs começamos a descer o Ciri, e que descida! Faz a descida do Tucum sentido Cerro Verde parecer brincadeira de criança. Uma piramba lisa, íngreme e com uns lajeados de pedra perigosos. Como já ouvi alguns comentários, “descer é ruim, subir deve ser bem pior”...
Depois da descida chegamos no “altiplano dos Agudos” e a caminhada se torna mais fácil e agradável, e as 17:20hs chegamos ao Colina Verde, bem na encosta do Agudo Cotia. Ainda falta buscar água, que fica a 5 min na trilha para o Cotia. Depois é armar barraca e começar a preparar o almojanta, todos com fome e cansados da pernada e de ter madrugado para dar inicio cedo na caminhada. Tanto que mal escurece e logo em seguida vamos para as barracas, 20:30hs e todos dormindo...
Serginho na rampa do Ciri

Eu descontraído

Camboja! só os fortes entenderão...

Ana Wanke com a galera

Descendo o Ciri

Altiplano dos Agudos

Olha o passarinho!

No Colina Verde

Um pouco antes do amanhecer escuto alguns pingos, torço para que não seja nada demais, mas me engano. As 5:00hs da matina despenca uma temporal daqueles, com direito a raios e tudo mais. Seria o final da jornada?!? Não!!! Graças ao bom Deus a chuva logo vai embora e 7:00hs já estamos tomando café e arrumando as tralhas. O tempo deu uma virada, nuvens encobrem as montanhas mais baixas, uma leve chuva vem e vai, mas resolvemos tocar em frente. De agora em diante vem a pior parte da travessia: sem trilha devemos seguir direto para o rio Forquilha e de lá subir a Garganta 235, que fica entre o Tangará e Coxotós. Nesta parte temos um trunfo, nossos colegas Mildo e Élcio tinham recém-aberto uma trilha entre o marco 22 (na estrada da Graciosa) e a garganta. Na verdade eles ainda estavam abrindo a trilha, e em conversas com eles ficamos sabendo que no dia 15 iriam terminar a parte que faltava. Seria muito bom achar uma trilha e evitar andar pelo rio Mãe Catira por quase dois dias. Aliás, neste dia nosso planejamento era caminhar até uma área de acampamento chamada “acampamento palmiteiro”, para no domingo sair no marco 22.
Saímos do Colina às 8:00hs e pegamos uma elevação logo a direita dele, que nos pareceu ser o melhor caminho. Mas a alegria logo termina, e começa o varamato em direção do Forquilha. Mais de uma hora depois chegamos ao Forquilha (ou a um afluente dele, não chegamos a pegar a carta para checar), agora a trilha é rio abaixo. E vamos nós deslizando pelas lisas e esverdeadas pedras deste belo rio. Passamos pelo navio e colmeia, formações rochosas que chamam a atenção e que foram nomeadas pelos que por aqui já passaram.
Depois de 2:30hs de caminhada chegamos à curva do Forquilha, lugar que devemos abandoná-lo e subir a encosta em direção à garganta. O local é marcado por fitas, mas quase passamos reto, pois caminhar em rio requer atenção redobrada para que nenhum acidente aconteça, e a atenção era tão grande que Zeca e Rafael nem viram as fitas e tiveram que voltar alguns metros.
Começamos a subida da encosta, claro, sem trilha. Mas existem fitas marcando a subida, e com atenção e bom farejo chegamos à garganta as 11:00hs. Festejamos junto ao livro de cume colocado pelo pessoal do Nas Nuvens Montanhismo, pois de agora em diante estaríamos caminhando na calha do rio Mãe Catira, e a travessia seria completada com certeza. No livro de cume duas assinaturas: o pessoal do Nas Nuvens quando levaram o caderno em agosto deste ano e do Élcio e Mildo, que no dia anterior finalizaram a trilha até a garganta e escreveram “é só seguir as fitas amarelas”!!!! Ficamos mais felizes ainda!!! Isso significa que poderíamos terminar a travessia ainda no sábado, pois caminhar por trilha é muito mais fácil e rápido que caminhar pelo rio. Alegria geral, já começamos a pensar no pastel da Graciosa e da Coca-Cola bem gelada...
Tempo fechado

No Forquilha

Descendo o rio

Saindo do rio

Garganta 235º

É nóis!

Assinando o livro, três registros este ano

clássica

Depois de assinado o livro iniciamos a descida 11:30hs, por uma bela, bem marcada e íngreme trilha. O início é uma piramba de respeito, descemos por um bom tempo as encostas do Coxotós para depois a trilha dar uma aplainada. Eu já falei que é uma bela trilha? E bota bela nisso! Caminhamos por agradáveis florestas, recortada por riachos cristalinos.
O tempo começa a fechar, e a chuva prevista para o final da tarde promete cair mais cedo. As 15:30hs chegamos ao dique de diabásio, impressionante formação geológica com um paredão de aproximadamente 20m de altura reto, por onde corre o rio Mãe Catira para logo a frente formar a também impressionante cachoeira do Mãe Catira, ou da Santa, com seus 30 metros de altura e grande poço. A descida é pela sua margem esquerda, com muito cuidado, pois além do perigo normal do lugar a chuva aperta. Chuva que a partir de agora será nossa companheira até o final do dia...
São 16:00hs e estamos na base da cachu do Mãe Catira, achando que em breve estaremos saboreando um delicioso e gordurento pastel no recanto da Graciosa, enquanto esperamos nosso resgate... só não sabíamos o quão longe ainda estava o marco 22. A trilha segue pela mata e por um pequeno trecho do rio para em seguida abandonar o Mãe Catira definitivamente e se embrenhar na mata num sobe e desce que não acaba nunca! O que chama a atenção neste trecho é a trilha lisa e enlameada e os inúmeros palmitos cortados.
O tempo vai passando e a moral baixando, depois das 18:00hs, com chuva e escuro é hora de pegar as lanternas. Nesta hora já imaginávamos que o pastel estaria fechado, o que abala ainda mais o moral da tropa.... Pela pouca conversa que rola dá pra ter uma ideia do ânimo da galera: “essa travessia é pra fazer uma vez só”, “devíamos ter acampado lá na baixada, antes da cachu”, “nunca mais eu volto aqui” eheheheheh
Descendo as encostas do Coxotós

Trilha bonita!

Dique de diabásio
Cachoeira Mãe Catira

Me tira daqui!

Depois do que parece uma eternidade começamos a ouvir o barulho dos carros na estrada da Graciosa. Agora sim, todos se animam e exatamente às 20:00hs e debaixo de muita neblina e chuva chegamos ao marco 22. Nos abraçamos e congratulamos, afinal foram 12 horas de pernada com apenas pequenas paradas para lanche e descanso, nenhuma maior que meia hora.
Mas ainda não acabou, temos que caminhar até o pastel que fica +/- 1 km pra cima, local do resgate. Fazemos uma fila indiana e vamos nos arrastando, fico imaginando o que o pessoal que passava de carro devia imaginar daquela cena: 5 mochileiros molhados caminhando na estrada com chuva e neblina...
Chegamos ao pastel, e claro que estava fechado. Nos agasalhamos porque o frio aumentou e tentamos por pelo menos um casaco seco. Mas a saga ainda não terminou, temos que ligar para o Wilson vir nos resgatar, pois o combinado era para ele nos pegar no dia seguinte à tarde... Como não sabemos se teríamos sucesso na chamada fomos todos juntos mais 1 km pra cima até um lugar que pegasse o celular. Bingo!!! Sr. Wilson estava dormindo as 9:00hs da noite e iria nos buscar, esta era a boa notícia. A ruim é que o carro do Zeca, nosso veículo de resgate, tinha dado problema na bomba d’água no dia anterior. “Venha de qualquer jeito” gritamos ao telefone.
Voltamos ao quiosque gelado aguardando o tão esperado “Scenic Rover” do Zeca pilotado por Sr. Wilson despontar na molhada estrada da Graciosa. Somente às 10:30hs chega nosso resgate, graças a Deus!!! Todos estavam com frio e cansados, e ninguém queria pernoitar mais uma noite na mata molhada.
E assim chega ao fim mais uma grande pernada com a galera AMC, galera esta que nem preciso tecer comentários, mas vou fazê-lo: Vocês são nota milhão!!!!!!!!! Como diz um grande amigo meu, companhia é tudo e essa galera é tudo de bom. Um agradecimento especial ao Mildo e Élcio pelo grande trabalho que tiveram, a trilha ficou show e agora esta travessia pode ser feita facilmente em um final de semana. Bom, nem tão facilmente assim...

Chamem com preferirem, Ciri-Graciosa, Bolinha-Marco 22, Terra Boa-Graciosa, só não me chamem de novo para fazê-la!!! Ehehehehhe... brincadeirinha...

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Camapuã, Tucum e Cerro Verde

Em homenagem e comemoração a conquista do Pico Paraná, realizada dia 13 de julho de 1941 por Rudolfo Stam, Alfredo Mysing, e Reinhard Maack, a Associação Montanhistas de Cristo realiza um evento chamado 5 Cumes, que consiste em subir 5 montanhas do Ibitiraquire com 5 equipes simultaneamente. O 5 Cumes é realizado todo ano desde 2002 sempre no mês de aniversário da conquista. As montanhas escolhidas foram o PP, Caratuva (as mais altas), Ferraria (a mais ao norte), Ciririca (a mais ao sul) e o Tucum. Esta escolha tem uma explicação, é que de cada uma destas montanhas pode-se avistar as outras quatro, sendo assim possível se comunicar por rádio e sinais de lanterna. No final do domingo todos se encontram no Tio Doca para comer chuleta com polenta e contar os causos.
Neste ano o 5 Cumes teve sua data alterada por causa do mal tempo, sendo adiado para o final de semana 27 e 28 de julho. Isto causou uma série de desistências devido a problemas com agenda e o tão temido “vento leste”, que insistia em soprar e mandar nuvens para a serra, apesar da previsão do tempo insistir em tempo bom, o que se concretizou.
Acabou sobrando eu e Matias para subir o Tucum e Cidinha no PP. Cover & Soraia iriam atacar o Caratuva no domingo, o que o Zeca acabou fazendo também, mas no PP.
Como a trilha para o Tucum é mais curta saímos sábado mais tarde do que de costume, 09h00min. Seguimos em direção a São Paulo pela BR116 até chegarmos à localidade de Terra Boa, aonde seguimos em direção a Fazenda da Bolinha, ponto de início da trilha do Tucum e também do Ciririca. Chegamos às 10h00min e não tinha mais ninguém por lá, sinal que o mal tempo durante a semana afastou a galera mesmo.
Começamos a caminhada bem tranquilos, porque tínhamos tempo de sobra pra chegar em nosso local de pernoite, o Tucum, pois tínhamos planejado no domingo um ataque ao Cerro Verde, montanha que eu ainda não conhecia.



A trilha começa suavemente cruzando o rio Samambaia 7 vezes para depois começar a subir em direção à bifurcação Tucum-Ciririca. Neste trecho encontram-se as árvores gigantes, 3 grandes exemplares de nossa floresta que chamam a atenção. Chegamos à bifurcação e encontramos a árvore onde estavam fixadas as placas que indicam os destinos caídas. Procuramos e achamos as plaquinhas e as fixamos novamente no que restou da árvore. Aqui se inicia a subida das encostas do Camapuã, e a subida aperta.
Mais a frente saímos da mata para andar pelos campos de altitude, e aqui começa a famosa “rampa do Camapuã”, uma subida reta por pedras e capim numa inclinação constante de +/-  50°, haja perna, a panturrilha chega a esquentar!!! No cume do Camapuã temos a primeira vista da serra: o PP, Itapiroca, Caratuva e Ferraria ao norte, Tucum a leste e Ciririca e Agudos pro sul. Dá pra ver a BR116 e as pontes sobre a represa Capivari, visual de 360°.
Tiradas as devidas fotos partimos para o Tucum descendo o vale que os separa, e na subida pegamos água na bica disponível eu sua encosta. Chegamos ao Tucum pouco depois das 15h00min e o visual se abre com a vista da Baía de Paranaguá e toda cadeia de montanhas do Ibitiraquire. As nuvens que ainda persistiam começam a baixar, e temos um por do sol magnífico com um tapete de nuvens cobrindo o litoral e as montanhas todas se sobressaindo. É nessa hora que sei o porquê de passar horas andando com uma mochila pesada nas costas, pegando sol e chuva e dormindo no chão duro...







Depois de muitos cliques começamos a prepara a janta, calabresa frita de aperitivo, feijão e arroz (com calabresa, é claro) e chocolate bis de sobremesa. Ainda rolou um chazinho pra esquentar, porque à noite o frio veio com força. Ficamos mais um pouco jogando conversa fora, tentamos alguns cliques noturnos das luzes de Antonina e Paranaguá (que não deram certo, nestas horas minha poit and shot não favorece) e fomos vencidos pelo cansaço. O planejado era acordar cedo, ver o nascer do sol e partir para o ataque ao Cerro Verde.
O dia seguinte amanhece ainda mais bonito; nenhuma nuvem no céu, sem palavras...






Após muuuuuitos cliques e um farto café da manhã partimos para o Cerro Verde. A trilha começa ao lado da área de acampamento no cume do Tucum, e desce pela face leste. E que descida...depois da piramba chegamos ao vale dos perdidos, mas que agora está marcado e com as bifurcações sinalizadas, tranquilo.
Começamos a subida ao Cerro Verde alternando por campos e macega, trilha chata pra se fazer de cargueira, ainda bem que fomos de ataque. Chegamos ao cume do Cerro Verde perto das 11h30min, e o que falam dele é verdade, uma das melhores vistas pro PP. Depois de um breve lanche (e muitos cliques, é claro) iniciamos a volta. Lembrar que teremos que subir as encostas empinadas do Tucum fazem as pernas esquentarem por antecipação... mas depois de 01h30min de caminhada e muita subida estamos de volta ao Tucum.








Hora de fazer o almoço e arrumar a tralha toda, sem pressa. O dia está um espetáculo e temos tempo de sobra pra chegar no Posto Tio Doca e encontrar os outros participantes do 5 Cumes.
Na volta encontramos o Getúlio (que tinha abortado a missão Ferraria) no cume do Camapuã com sua mãe, Maria de Lourdes. A volta foi tranquila, chegamos à fazenda no início da noite.
Ainda sobrou tempo para a confraternização no Tio Doca, aonde comemos chuleta com polenta na companhia dos ilustríssimos colegas Cover, Soraia, Zeca, Getúlio, D. Lourdes e Matias. A Cidinha não pode esperar e a Lucimara apareceu não sei da onde e foi embora não sei porque, só deu oi/tchau pra galera.

Mais um grande final de semana abençoado por Deus na companhia da galera nota 1000 da AMC,conquista de uma montanha inédita (para mim), tempo excelente, visual maravilhoso e muitas fotos e filmes...


 Otávio