terça-feira, 27 de novembro de 2012

O descampado de Banhado


No final dos anos 80 eu e meus amigos começamos a “ir pro mato”. Pegávamos o trem pra Paranaguá com nossas cargueiras e diante dos olhares atônitos das pessoas “normais” descíamos nas estações e nos embrenhávamos na floresta. O Véu da Noiva (estação de trem antes do Marumbi) era o local preferido, não apenas meu e de minha turma, mas de muitos que igual a nós curtia a natureza e camping selvagem. Outro lugar que costumávamos ir era o “descampado”, uma ilha de capim baixo no meio da mata atlântica, aos pés do morro do Pelado e Chapéu.
Esta trilha era desconhecida da maioria, o que tornava o lugar praticamente exclusivo. Bem, era o que pensávamos, até que em 1987 uma competição de corrida de aventura (acredito que a primeira do Brasil) o Marumby Trophy passou por ali. Os anos se passaram, conheci as montanhas e abandonamos o Véu e Banhado e começamos a subir as montanhas; nossos destinos passaram a ser o Marumbi, PP, etc...
No meu retorno ao montanhismo (através da AMC em 2010) comentei sobre o descampado, e o Cover (Giancarlo Castanharo, grande montanhista da AMC) logo me questionou sobre ele, demonstrando interesse em conhecê-lo, pois já tinha ouvido falar e a curiosidade era grande. Fomos conversando e tentando encaixar uma data, estudando o lugar pra ver as possibilidades de uma incursão por aqueles lados. Até que combinamos um ataque para sábado. Tudo certo, galera confirmando até que o Cover, um dos principais interessados não pode ir... fica pra próxima companheiro, que com certeza vai acontecer.
Nos encontramos às 6:00hs da manhã de um sábado chuvoso e cinzento no Jd. Botânico; eu, Serginho, Getúlio, Luís Delfrate, Maicon e Matias. Estava formada a trupe da Operação descampado! Logo embarcamos nas viaturas e nos dirigimos até a estação Roça Nova, último acesso possível de carro para a estrada de ferro Curitiba-Paranaguá.



Mochilas nas costas, últimos ajustes e iniciamos a caminhada 7:20hs em direção ao túnel 13, o mais longo da linha férrea. Travessia tranquila, apesar da escuridão total no meio do túnel. Logo após o túnel temos a represa de Caigoava, com sua chaminé parcialmente submersa nas águas e nas brumas da manhã. Se a neblina permitisse poderíamos ver o morro do Canal, Torre do Vigia e Carvalho do outro lado da represa.
A caminhada continua pelos trilhos. Quem já caminhou por eles sabe como é ruim caminhar entre dormentes e pedra brita: a distância entre os dormentes é curta para um passo, e longa para pular de dois em dois, coisa de engenheiro! Pra piorar, nem sempre tem brita entre os dormentes, ficando um buraco, bom para torcer o pé.



7 km adiante encontramos o local da entrada para a trilha, se é que ela estava lá. Será que 25 anos depois ela ainda existia? Fomos preparados com facão, mapa e GPS para o que pintasse, nossa intenção era seguir pelo Rio Ipiranga, que toma conta da região e passa ao lado do descampado, segundo a carta topográfica de Morretes e o Google Earth. Eu já tinha marcado as bifurcações do rio, e estava pensando seriamente em fazer uma caminhada aquática, por dentro do raso Ipiranga.
Mas assim que deixamos os trilhos e começamos a fuçar no mato atrás de vestígios da picada Matias grita: “achei!” Fomos em sua direção e lá estava ela; como se os anos não tivessem passado encontramos uma trilha bem demarcada, e foi só segui-la para perceber que ela continua a ser utilizada, talvez por caçadores, ou o pessoal da ALL, não sei. O fato que ela esta lá, inclusive com algum lixo e restos de fogueira. Acredito que não sejam montanhistas as pessoas que por lá estejam caminhando, pois não temos conhecimento de ninguém que tenha andado por aqueles lados. Vamos avançando num ritmo bom, pois utilizamos o facão apenas nas partes mais fechadas, e o GPS para verificar se estamos no rumo certo.
Depois de 20 min de caminhadas já estamos todos encharcados de enxugar a mata molhada da chuva da noite anterior.  Encontramos duas árvores grandes e uma pequena clareira, e a recordação me vem a mente, “já passei por aqui!” Lixo e madeira queimada demonstram que outras pessoas também... Paramos para um rápido lanche e continuamos a caminhada. Logo estamos na margem do Ipiranga, e vamos segui-la por um bom tempo.






A trilha continua limpa e quase desimpedida, apenas alguns trechos aonde o mato cresceu mais utilizamos o facão. E começa a chover... sorte que a chuva não durou muito. Se bem que já estávamos molhados mesmo e fomos preparados pra pegar chuva, então...
A trilha deriva um pouco para a direita, em direção ao trilho, o que faz com que andemos um pouco mais do que se fossemos pelo rio. Isso quer dizer que numa bifurcação que marquei em pegar a esquerda a trilha seguiu o rio da direita. Mas continuamos indo na direção correta, a trilha está ali, não tem o que discutir. Nesta parte deixamos a margem do Ipiranga caminhando pela mata.
Após 4 horas de caminhada chegamos novamente ao rio Ipiranga, para cruzá-lo. O descampado está muito próximo, menos de 100 metros. Procuramos a continuação da trilha na outra margem e nada, fuça daqui, procura dali, todos dentro do rio, um pra cada lado e não conseguimos achar a continuação da trilha; o que fazer? Dá-lhe facão!!!  Achamos um trecho com vegetação menos densa, miramos pelo GPS e vamo que vamo!!! Em 20 minutos estamos no descampado. Neste trecho encontramos a única cobra do caminho. E por falar em animais, ficamos surpresos com a quantidade de pássaros, o tempo inteiro andamos com uma sinfonia de arapongas, canários, etc... isto significa que a área é bem preservada, o que pudemos constatar também pela mata intocada, o único senão é pela pequena quantidade de lixo deixado na trilha.
Finalmente o descampado, 25 anos depois!!! Após caminhar mais de duas horas dentro da mata fechada achar esta área sem uma árvore (apenas um capão de mato no topo de um morrote) do tamanho de uns 10 campos de futebol vale o esforço. O lugar é muito bonito, e se não fossem as nuvens teríamos uma visão privilegiada de quase toda Cordilheira do Marumbi.









Caminhamos para o alto da pequena elevação que domina o descampado, aonde existe um pequeno capão de mato, era ali que acampávamos antigamente. O capão ficou bem maior e denso. Passamos pro outro lado do morrote para ficarmos de frente pras montanhas da serra do Marumbi. Serginho desce até o final do descampado no outro extremo da onde entramos, e encontra a continuação da trilha, que segue até a “freeway”, como era conhecida a linha de captação de água do reservatório do Carvalho, que fica próximo ao morro do Canal. Dali também era possível subir o morro do Pelado, caminho que foi feito pelo Marumby Trophy, mas isso são apenas conjecturas, e que ficarão para uma próxima investida, pois a chuva intermitente e o curto espaço de tempo nos fez desistir de continuar a caminhada.
Almoçamos ali mesmo, sentados no baixo capim do Descampado de Banhado, tentando avistar as montanhas a nossa frente, mas as nuvens nos davam apenas pequenas amostras dos seus contornos. 12:30hs começamos a voltar debaixo de chuva novamente. A volta foi tranquila, na mesma balada da ida. Agora que os facões estavam guardados aproveitamos para tirar fotos, e a volta demorou o mesmo tempo que a ida. Chegamos aos trilhos 14:45hs e resolvemos ira até a estação de Banhado. O Maicon, recruta mais novo do bando, não conhecia a estação nem o famoso jacaré de Banhado...
Os mais velhos devem ter ouvido falar ou conheceram pessoalmente o “jacaré” que morava no chafariz da estação. Na verdade o “jacaré” era uma desculpa pra levar os curiosos até o chafariz. Nos anos 80/90 o trem era gerido pela RFFSA e muito barato, do preço de uma passagem de ônibus. Todos iam pra a serra de trem, e o trem parava em todas as estações. Quando o trem chegava em Banhado os novatos e curiosos eram levados para conhecer o “jacaré”, quando chegavam perto do chafariz eram jogados lá dentro, “batizados” nas trilhas da serra do mar. Maicon não escapou do batismo e molhou-se nas águas de Banhado.


Nos restavam os 7 km até a estação Roça Nova, que foram vencidos em 2:30hs, chegamos nas viaturas 5:15hs. Colocamos uma roupa seca e fomos brindar com Coca-Cola e gasosa Rio Branco o sucesso da empreitada.
Ficou a vontade de continuar a trilha até a freeway, e quem sabe, morro do Pelado ou Chapéu. Também descobri que existe uma linda cachu no Rio Ipiranga entre o Pelado e Chapéu, coisa que vale a visita. Espero retornar em breve, se esperar mais 25 anos não chego nem no descampado...






sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Passeio família em Sengés e Itararé



Passeio família em Sengés e Itararé




Com 112 anos de emancipação político - administrativa, Itararé abriga uma população de aproximadamente 50.000 habitantes. Tem na agricultura seu alicerce econômico, principalmente a cultura do feijão, milho e soja, além de contar com uma forte atividade pecuária.

Tem ainda, a maior área de reflorestamento artificial do Brasil e está numa região cujo conjunto é a terceira maior área do mundo.


Desmembrada da antiga Fazenda da Faxina, hoje Itapeva, Itararé teve momentos de importância na história paulista e brasileira: parada obrigatória dos tropeiros que vinham de Viamão no Rio Grande do Sul em direção à Sorocaba, fato que propiciou as condições para o nascimento da cidade; foi o maior entreposto madeireiro da América Latina nos anos 20 e 30 e ponto logístico fundamental nas Revoluções de 30 e 32.





Com o calor que estava fazendo no final de outubro, e pensando no que fazer no feriadão de finados, começamos a estudar as possibilidades. Desta vez seria passeio com a família, então nada radical.

O calor pedia banho de cachoeira, então pensamos em dois lugares: Prudentópolis e Itararé. Como Prudentópolis é mais perto escolhemos Itararé, assim aproveitaríamos melhor os três dias disponíveis. Prudentópolis que nos aguarde, em breve estaremos por lá.

O grupo foi se formando, eu com esposa, filho, sobrinha e cunhada; Matias e esposa; Thomas & Ingrid com e seus pais (dele e dela). De última hora apareceu o Daniel, que recém-casado aproveitou e fez sua lua de mel com toda essa galera junto...

Sexta de manhã nos reunimos no parque Barigui e rumamos em direção ao interior do estado. Viagem tranquila por pista dupla até quase Jaguariaíva, depois pista simples até Sengés, perto da divisa com SP.

Chegando a Sengés paramos no posto para encontrar com os pais do Thomas, que vieram de São Paulo mais cedo, na verdade um dia antes. Como nos atrasamos um pouco eles já tinham saído em direção a Cachoeira Véu de Noiva, em companhia do guia Marinho. Sim, desta vez pegamos um guia. Já que não conhecíamos quase nada por lá iríamos perder muito tempo procurando as atrações, e como estávamos em bastante gente acabou ficando em conta. (guia Marinho (15) 97974052 ou 97974904).

Como esta cachu o Thomas já conhecia lá fomos nós passear pelas estradas de Sengés. O tempo estava bom, nublado, mas sem chuva, se o sol tivesse aparecido ficaria perfeito. Fomos de carro até bem próximo da cachu, e em menos de 5 minutos de caminhada já dava pra ouvir o barulho da queda d’água... linda!!! O nível do rio estava baixo, mas mesmo assim deu pra tomar um banho muito bom.


























Nos refrescamos e voltamos para Sengés, pro almoço. Almoçamos no restaurante do mesmo posto que paramos na chegada, Restaurante da Padroeira. Não sei se foi o horário (mais de 14h00min) mas não estava muito bom, e pelos R$ 14,90 do buffet ou R$17,90 do espeto corrido esperava mais.

Todos alimentados e carros abastecidos partimos pra segunda etapa, Cachoeira do Corisco e Poço Encantado. Seguimos em direção a Itararé, e pouco antes da divisa dos estados saímos da estrada à direita.

Corisco e Poço Encantado ficam em propriedades particulares (pelo que vi da Klabin). Na ida Marinho para pra pegar a chave das porteiras. Corisco é a primeira a ser visitada, fica a +/- 1km da estrada, dentro de uma área de reflorestamento. Aliás, o que mais tem por lá é pinus e eucalipto, pra onde você olhar vai ver um reflorestamento. Até mesmo dentro da RPPN do Corisco tem pinus.

Chegando à Cachu do Corisco temos um “centro de visitantes”, uma pequena trilha de 100m cercada que parece um curral, e que chega a um mirante na beira do cânon e de frente pra cachu, que tem mais de 100m de queda, show!!!

Depois de muitos cliques partimos em direção ao Poço Encantado, alguns kms à frente. O poço é uma nascente de águas cristalinas, aonde avistamos uma tartaruga e alguns peixes. Mais cliques e já está na hora de ir embora.



















Partimos em direção a Itararé, para a pousada Topitó. Itararé é uma cidade muito simpática, com algumas pousadas, hotéis e restaurantes. A pousada Topitó é um charme, confortável e muito agradável. O dono é colecionador, e como na cidade todos sabem que ele coleciona peças antigas, ao invés de jogar fora levam pra ele. O resultado é uma pousada cheia de peças antigas por todos os lados.

A noite saímos pra comer pizza no centro (Pizza 7), muito bom, comemos bastante e ficou em R$ 9,00 por pessoa. Voltamos para pousada, afinal no sábado teríamos uma caminhada de 14 km, a rota das cachoeiras.






















Sábado acordamos cedo, com uma leve chuva. Tomamos um café da manhã reforçado, e a chuva continuava, fraquinha. Resolvemos sair assim mesmo, pois parecia que iria parar de chover, e parou mesmo, a chuva foi apenas para baixar a poeira da estrada.

Seguimos novamente em direção a Sengés, pro mesmo lado da Cachu Véu da Noiva. Na ida Marinho passou na casa da D. Augusta e reservou nosso café para a volta. Começamos a caminhada sem chuva, com tempo nublado e um calorzinho bom. Deus é bom...

A primeira das cinco cachus visitada é a C. Cabeceira do Postinho. O acesso é por uma estrada dentro de um reflorestamento (pra variar...), chegamos por cima dela e descemos por uma trilha até seu poço. Como as demais, seu nível está baixo. De lá seguimos por trilha até segunda, e em minha opinião a mais bonita das cachoeiras, a dos Veadinhos. Cachu rasa com várias quedas, ideal para um banho. Aqui descansamos, lanchamos e seguimos para a próxima, Cach. Do Lajeado. Como as outras, chegamos por cima da queda maior, atravessamos o rio descemos pela outra margem. Mais uma cachu magnífica, com piscinas fundas e várias quedas. Essa é uma característica da região, cachus lajeadas, com vários degraus, devido ao solo de arenito.

Seguindo passamos pela Cachu do Bugre, aonde apenas tiramos algumas fotos e partimos para a última do circuito, Cachu do Poço Fundo.

Aqui descansamos mais um pouco, e logo seguimos de volta para os carros, e para o café da D. Augusta. Aliás, D. Augusta é famosa por lá, o pessoal que faz a rota das cachus sempre para por lá pra tomar café, afinal é uma caminhada de +/- 5 horas, o pessoal sai da trilha com fome... o interessante é que ela não cobra nada, quem fala que tem que pagar é o guia. E não tem valor estipulado, cada um paga o quanto quiser ou achar que vale o café reforçado. Comemos queijo, doce de abóbora, doce de leite, bolinho de chuva, leite, tudo fresquinho, direto da propriedade.

Final do 2º dia, ou quase, faltou a janta! A pizza do dia anterior foi tão boa que repetimos a dose, Pizza 7 novamente.



























Domingo, dia de ir embora, mas antes vamos conhecer o Cânon do Pirituba e sua Cac. Da Invernada; e a Pedra da Galinha. Estas atrações, diferente das anteriores, ficam em SP, no munícipio de Bonsucesso.

O Cânion do Pirituba fica em propriedade particular, dentro de um reflorestamento, é claro... Mas lá apesar de ter porteira a cerca acaba logo ao lado dela, deixando a passagem livre. O cânion é espetacular, o lugar mais bonito de nossa viagem. Suas paredes verticais mantém os pinus do lado de fora, dentro do cânion a vegetação é bem preservada. Logo ao lado fica a cachu da Invernada, muito legal também. Marinho nos disse que só podíamos visitar a parte de cima do cânion, mas já vi fotos lá de baixo... tudo bem, no nosso grupo temos pessoas de 78 a 15 anos de idade, então fomos pra fazer um passeio light com a família...

De lá seguimos pela estrada até a Pedra da Galinha, formação rochosa parecida com Vila Velha (Ponta Grossa/PR). As formações ficam ao lado da estrada, é só descer do carro, pular uma cerca e andar 3 minutos.

Ficamos algum tempo explorando o local, tirando fotos e curtindo o visual. Mas está na hora de ir embora, ainda temos muita estrada pela frente.






















Voltamos para Itararé e resolvemos almoçar no caminho, num restaurante localizado num sítio perto da entrada de Itararé, infelizmente esqueci o nome... comida caseira no fogão de lenha, muito boa por sinal.

Mas já está na hora de retornar a Curitiba, então voltamos a pousada pra pegar a bagagem e pé na estrada. A volta foi demorada, retorno de feriadão sempre tem movimento grande...

Sengés/Itararé, duas cidades muito próximas, uma em cada estado, numa região fantástica, cheia de cânions, cachus, rios e grutas que vale a visita. É claro que não conseguimos fazer tudo, mas isso só dá mais vontade de retornar. Espero que em breve.




Otávio