segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Subida ao Morro do Araçatuba - de ataque (jan. 2012)

Olá Pessoal!

Passo a relatar um passeio curto de montanha, ataque realizado no Monte Araçatuba, em Tijucas do Sul (PR), realizado no dia 08/01/2012 - domingão, com direito a pequeno perrengue, para abrir o calendário de montanha do ano. O grupo, formado por Getulio (eu), Daniel, Jairo e Márcio, é um destacamento misto da AMC - Associação Montanhistas de Cristo e Grupo Montanhoso, ambos de Curitiba (PR). Combinamos o passeio durante a primeira semana do ano, inicialmente eu e o Daniel, depois foram se juntando ao grupo o Jairo, o Luiz e o Márcio (que queria na verdade fazer a subida ao Morro do Canal, mas acabou convencido por mim a se juntar à trupe). 


A MONTANHA

O Monte Araçatuba, com seus 1673 m de altitude, é a montanha mais alta da região sudeste do Paraná, quase divisa com o estado de Santa Catarina, fazendo parte do complexo da Serra do Mar - em sua última porção no Estado do Paraná. Como recebe diretamente ventos marítimos de sudeste e massas de ar frio do sul, é tida como a montanha mais fria do Paraná no inverno, possuindo um micro clima bastante peculiar, dominado por virações (nevoeiros), ventanias, pancadas de chuva e ondas de frio bruscas. A previsão do tempo ali é uma verdadeira roleta russa... No inverno costuma gear forte em suas encostas e já foi noticiada neve em suas cercanias mais de uma vez no passado recente. No verão o calor implacável literalmente assa aqueles que caminham por suas trilhas durante o dia, posto que a maior parte da caminhada de ascensão se dá em campo aberto, praticamente sem proteção.

A caminhada de ascensão ao cume não apresenta dificuldades técnicas e não exige grande preparo físico. Desde a base até o cume são de 3 a 5 horas de caminhada, dependendo do ritmo de caminhada. A única dificuldade presente, especialmente no verão, é a exposição ao sol em praticamente 95% do trajeto de cerca de 3,5 Km morro acima, até seu cume. Há disponibilidade de água em vários pontos do trajeto (recomenda-se usar hipoclorito em razão da presença constante de gado na área).

Do seu cume, em dias favoráveis – com tempo limpo – se pode ver a Baía de Guaratuba à leste e parte do litoral catarinense, além dos campos e montanhas da Serra do Quiriri, ao sul e a Serra da Papanduva, na direção sudoeste.


A CAMINHADA, CUME E RETORNO

No dia combinado, domingo, 08/01/2012, beeem cedo, abasteço o jipe por volta das 5h da matina. O fato de ser madrugada se deveu ao fato de intentarmos começar a caminhada bem cedo para escapar da inclemência do sol de verão. Havia ainda o fator carona, pois pegar a turma pelo caminho sempre gera algum atraso por mais pontuais que sejamos. 

O combinado foi pegar o Jairo às 5h45min no Bacacheri e o Daniel às 6h, no Jd. Botânico, apanhando os demais pelo caminho na sequência, já que todos moram no itinerário em direção a São José dos Pinhais. Pouco depois das 5h30min recebo uma ligação pelo celular - o Luiz informando sua desistência em razão de ter passado mal durante a madrugada (intoxicação alimentar, ou quase isso, rsrs!). Uma baixa logo no início da trip... Fazer o quê, pensei... 
Encontrei o Jairo no local combinado e, logo em seguida, o Daniel embarca. Logo a seguir já estamos na BR-277, acelerados na escuridão e no sossego que ainda reinam na pista em direção a São José dos Pinhais. Ali encontramos o Márcio e atravessamos parte daquela cidade em nosso rumo à saída para a BR-376, em direção à Garuva. Nosso destino: pequeno sítio na base para a subida do Monte Araçatuba, no distrito do Matulão, pertencente ao município de Tijucas do Sul (PR), a quase 67 Km de Curitiba (dados do GPS). 

O acesso ao Distrito do Matulão se dá pela própria BR-376, num pequeno trevo cerca de 4 Km depois da Represa do Vossoroca, à direita, por estrada de saibro. Segue-se a estrada principal e são visíveis pequenas placas com indicação do Morro Araçatuba nas principais bifurcações da estrada, basta ficar atento e seguir sempre à esquerda. 

Chegamos ao ponto de estacionamento cerca de 7h30min. Ali existe uma placa alusiva às trilhas da área, com indicativos de distâncias e tempo e uma pequena e rudimentar estrutura de visitação com banheiros e estacionamento bem como uma casa de apoio, usada para guardar material para contenção de incêndios florestais, antes bastante comuns naquela área. A manutenção dali é feita pela AMR – Associação de Montanhismo RevitalizARA, entidade criada por montanhistas voluntários para proteger a região do Monte Araçatuba – cujo grande mérito, além da manutenção das trilhas, tem sido a extinção das queimadas agrícolas (e dos devastadores incêndios nos campos de altitude delas decorrentes) nas montanhas da região, que há alguns anos viviam calcinadas – graças a um belo trabalho de educação ambiental desenvolvido em parceria com a comunidade local e o investimento na formação das futuras gerações através da conscientização de crianças e adolescentes. Um belíssimo trabalho do qual já tive o prazer e a honra de participar.

O "esquadrão": da esq. p/ a dir. Daniel, Jairo, Getulio (eu) e o Márcio.


Entrada da trilha, área de apoio


Pagamos a diária do estacionamento (R$ 10,00) à proprietária do pequeno sítio onde fica a estrutura de apoio e o início da trilha, uma senhora bastante solícita – especialmente para receber o $$ do nosso veículo antes que sumíssemos na trilha, já que no retorno provavelmente nem veríamos sinal dela (e realmente foi o que ocorreu). Demoramos uns minutos para ajeitar as mochilas, comer algo e calçar as botas. Pausa para a tradicional foto de início de trilha e pé no mato.

A subida começa tranqüila. Iniciamos a caminhada às 7h45min. O trecho inicial é em meio à mata fechada, garantindo alguma proteção contra o calor nos dias ensolarados. Naquele horário a temperatura ainda estava amena, especialmente por estarmos ainda com o corpo frio, mas o ar matutino já dava sinais de como seria o dia – quente e úmido! Logo de cara se transpõe um pequeno riacho e em poucos minutos a subida já começa a apertar. Em pouco mais de meia hora já se caminha em terreno praticamente aberto, dominado por vegetação de baixa estatura composta por pequenas árvores e toiceiras de arbustos (vegetação de encosta). A trilha vai ziguezagueando, seguindo as curvas de nível para galgar altitude. Logo aparecem as primeiras pedras e algumas lajes de pedra que devem ser vencidas, nenhuma dificuldade técnica, apenas caminhada forte morro acima. Das primeiras pedras já se tem um pequeno mirante com vista para o horizonte, ao longe, em direção à Represa do Vossoroca e às cidades mais próximas, como partes de Tijucas do Sul e Agudos do Sul (PR). Aproveitamos o momento de visual limpo com a trégua do nevoeiro e subimos nas pedras para algumas fotos. A visibilidade ora está boa, céu aberto, ora fica péssima, com nevoeiro insistente que ora cobre toda a encosta das montanhas e tampa todo o visual, mesmo da encosta da montanha à frente.



Vegetação


Subindo
Jairo


Mirante


Primeiras vistas do planalto abaixo, o tempo ainda estava limpo


Pedras decorando a encosta...


Logo adiante vislumbramos um trecho de mata mais densa, e de um tom de verde mais vívido, que teríamos que transpor para continuar nossa trilha. É onde se encontra um riacho, ponto de abastecimento de água. Pequena pausa para o Jairo captar água, já que estava com o cantil vazio. Os demais já vinham com água desde a base e passaram reto. Observação importante que sempre faço: como naquela região há muito gado solto nas encostas, há um grande risco das fontes de água apresentarem algum grau de contaminação, motivo pelo qual se deve usar algum tipo de purificador, como hipoclorito, Clor-in ou similares. 


Riacho


Continuamos a caminhada morro acima e a neblina resolveu baixar de vez. Caminhamos por cerca de 1 hora com algumas pequenas paradas, especialmente eu, para ganhar fôlego (resultado dos meus quilinhos a mais). Neste tempo com praticamente nada de visual além de 50 metros. Como o céu acima dava mostras de que o tempo provavelmente iria limpar, continuamos nossa empreitada na esperança de que ainda teríamos visual do alto do cume do Araçatuba.


Subindo sempre...


Cerca de 10h30min chegamos a um pequeno platô, com algumas pedras e vista dominante para a trilha atrás de nós. O nevoeiro forte encobria ainda a visão que teríamos do planalto paranaense abaixo de nós. Resolvemos então parar e fazer uma breve pausa para lanche. Nos sentamos convenientemente sobre algumas pedras e passamos a degustar as nossas iguarias de trilha: paçoca de amendoim, barras de cereal, damasco seco, bolachas, etc.
Forte nevoeiro


Panças devidamente reabastecidas e ouvindo rumores de pessoas abaixo de nós na da trilha de subida, resolvemos tocar morro acima, agora direto pro cume. Poucos metros acima já avistávamos com maior nitidez o falso cume e a trilha principal até ele, cortando pela crista, pouco à direita. O calor, mesmo com a ausência dos raios solares diretos, cobrava seu preço sobre nossas cabeças, já que a névoa criava um tipo de “mormaço” que mais parecia uma sauna úmida a ensopar nossas camisetas com nosso próprio suor. 

Vencida a crista em direção ao falso cume, que apresenta uma inclinação respeitável e impõe uma subida bem cansativa, foram breves minutos até atingi-lo, já que seguimos (erroneamente) a trilha pela esquerda na discreta bifurcação após a crista. Sem visual, ladeamos o falso cume seguindo o caminho até visualizar o verdadeiro cume do Araçatuba, cerca de 200 m à nossa direita. Mudamos nosso curso atravessando o pequeno baixio entre as duas elevações na área do cume e galgamos a encosta do cume verdadeiro, fazendo um pequeno “>” para seguir aproximadamente a curva de nível e facilitar um pouco a subida. Enfim, às 11h35min, quase 4h depois de iniciada a caminhada, atingimos o cume do Monte Araçatuba.

Vista próxima ao cume


Dali sentíamos o vento sul mais forte, arrastando massas e massas de nuvens, indicando possível mudança no tempo, nos dando nova esperança de que poderíamos ter algum visual para o horizonte.

Nos ajeitamos ao redor da caixa metálica com o livro de cume, e vestimos nossos anoraks para nos protegermos do vento, que mesmo com o calor, em vista das camisetas encharcadas de suor da subida, nos enregelava aos poucos.

Ao prestar atenção na caixa de cume percebo que ela é novinha (a anterior estava bastante degradada e sem livro quando estive lá em mai/2011 com os Montanhosos). Ao abri-la nos deparamos com um caderno instalado pelo CPM – Clube Paranaense de Montanhismo em out/2011, com uma mensagem da equipe que instalou a nova caixa e livro de cume. Desta equipe participou um companheiro conhecido, o caro Marcel Schmal. Eita mundo pequeno! Abraço Schmal!!!

Assinamos o livro de cume, e ficamos lá curtindo o pouco de visual que tínhamos, ao mesmo tempo em que fizemos outros lanche. Nesse meio tempo apareceu o grupo que subia atrás de nós, pessoal de Tijucas do Sul, que nos cumprimentou e também ficou na área de cume com esperança de que a neblina cedesse...

Enquanto literalmente matávamos tempo com o GPS e uma carta topográfica da região, conversando sobre trips passadas, uma aranha caranguejeira saiu de sua toca e, se eu não estivesse atento entraria na minha mochila. 

Aranha


Logo começamos a sentir um vento diferente, mais forte e úmido vindo do sul. Antes que esboçássemos qualquer reação o vento virou um temporal com uma chuva forte que passou a varrer a área do cume. Juntamos as tralhas espalhadas, encapamos as mochilas e as jogamos nas costas e perna! Nem deu tempo de tirar fotos boas no cume sem a vista. Eram cerca de 12h20min. Começamos a descer, literalmente correndo, pela trilha principal. Logo atrás e depois nos ultrapassando, o grupo de Tijucas corria mais rápido. Uma chuva forte, com vento, daquelas que parecia ficar o dia todo sobre o local. Imediatamente as trilhas começaram a virar um charco e, nas descidas, verdadeiros riachos com corredeiras. Num dos trechos, na descida da crista do falso cume, uma encosta de pedra, antes seca, jorrava água com um vigor tremendo, transformada numa verdadeira cachoeira ao lado da trilha, que se desdobrava em diversas outras quedas pelas lajes mais abaixo. Um espetáculo realmente interessante. Fiquei para trás com o Daniel e aproveitei para tirar algumas fotos já que a trilha estava congestionada. Era um dos trechos mais íngremes e 7 pessoas em fila se espremiam tentando descer sem cair e fazer um tobogã até o colo da encosta do falso cume. Deixa eles, pensei eu. 
Casca-trilhas


Cascata temporária formada pela chuva


Cerca de 25 minutos de corrida/caminhada morro abaixo, a chuva que parecia ter chegado para ficar diminuiu e por fim cessou completamente dando mostras de que logo seria substituída por um forte sol. Estava com os pés e a calça completamente molhados pela chuva. A bota até resistiu às pisadas nos charcos, mas na descida da trilha em meio às pequenas cachoeiras que e formaram na trilha era inevitável enfiar o pé até o joelho nas canaletas cheias de água corrente, aí não há bota que agente...


Descida


Desvestimos os anoraks com o calor terrível que fazia mesmo com a chuva que caíra. Márcio e Jairo bem abaixo de nós seguiam pela trilha principal e o pessoal de Tijucas já estava fora de vista. Mais algumas pausas para fotos da encosta e uma regada rápida nas plantas, afinal chovera pouco. 

Bobeamos um pouquinho e perdemos a trilha principal de vista, o que aliás não é algo difícil de ocorrer no Araçatuba. Existem muitas trilhas secundárias, de gado bovino e humano, algumas correm paralelas e chegam nos mesmos lugares, outras não. Apesar de estar com o GPS (“pai dos burros” diria o Jorge Soto) fomos usando o instinto num primeiro momento, já que o visual não ajudava e sabíamos que sairíamos no mesmo lugar no final. Fomos tocando encosta abaixo sobre o capim alto da encosta e trechos de macega com arbustos mais elevados e pedras por cerca de 30 minutos. Após um desvio para a direita num rastro que parecia a trilha, esta desaparece e nos vemos no meio do nada. Pausa, subida numa pedra, olhada rápida em volta e vejo uma trilha menor pela esquerda, mais abaixo. Como o Daniel estava já com pinta de preocupado pensei ser melhor consultar o GPS e verificar. Bingo! Aquela trilha mais à esquerda era justamente a trilha sul do Araçatuba e por ela fomos tocando até encontrarmos o riacho e logo à frente as lajes de pedra antes da mata. Mais 25 minutos de caminhada forte descendo e já ouvíamos os rumores no estacionamento onde estava o jipe e logo encontramos o Jairo e o Márcio no riacho antes da entrada da trilha.

As peripécias do dia ainda não haviam terminado. Para nossa surpresa, ao sentarmos em frente aos banheiros do início da trilha para trocar de calçado e de roupa e acomodar as mochilas no jipe, o Márcio, ao entrar num dos WCs dá de cara com uma pequena cobra, que com muita marra defendia o vaso sanitário. Não foi possível verificar de que espécie era o animal. Parecia de longe um filhote de jararaca, mas na dúvida e frente ao nervosismo do bicho, melhor não arriscar um contato mais próximo. A deixamos lá mesmo, no WC interditado, torcendo para que ela depois abandonasse seu posto em busca de um local menos perigoso (para ela) e o Márcio teve que usar outro WC... Rsrs.



A cobra


Para finalizar a empreitada, após percorrer a estradinha de terra até a entrada do Distrito do Matulão e tomar o retorno na BR-376, com uma baita fome, fizemos uma parada num restaurante de posto para comer algo mais reforçado. Depois de uns sanduíches, umas brejas e um prato de comida (meu), já recompostos, tocamos direto até a capital, entregando os companheiros pelo caminho nas suas respectivas residências, cansados, sujos, molhados mas de alma lavada!

Enfim, eis uma trip simples e que ao mesmo tempo proporciona sempre um bom grau de desafio de trekking e montanhismo a quem se dispõe a sair da capital paranaense ou arredores e rodar alguns Km para encarar a última porção de Serra do Mar no Paraná.

Até a próxima! Valeu moçada! Grande abraço a todos!



Getúlio R. Vogetta