sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

De volta ao Quiriri - Pedra da Tartaruga e Vale encantado - 10/2011


Após termos feito a travessia Garuva-Monte Crista no feriado de Corpus Christi comecei a pensar na próxima aventura. Tínhamos planejado ir até a Pedra da Tartaruga durante a travessia, aproveitando que tínhamos 4 dias, mas vimos que não seria possível. A subida forte do Monte Garuva (de mais de 1.100m de desnível) e o começo um pouco tarde mudou nosso planejamento, e abortamos a caminhada até lá.
Quando encontramos a turma que fez a travessia do Araçatuba eles também tinham a mesma vontade (conhecer a P.Tartaruga) pois quando passaram por lá não puderam nem visualizá-la. Aproveitando que já estaríamos lá perto, no domingo a idéia era esticar até o marco da divisa, obelisco edificado no meio do nada depois da Guerra do Contestado, que demarcou a divisa atual dos estados do PR e SC.
Então  já tinhamos decidido o destino, faltava torná-lo possível. Eu pensava em subir de carro até a Fazenda Alto Quiriri, mas precisava descobrir o caminho (lembra do desnível de +/- 1.100m?).  Acabei achando um colega jipeiro que já tinha subido lá de carro, e resolvi perguntar se ele tinha o tracklog... e a resposta foi sim!!! O track da P. Tartaruga e marco da divisa peguei com o Tiago, quando ele fez a travessia Monte Crista – Araçatuba.
A primeira parte já estava resolvida, como chegar a fazenda, agora faltava resolver como passar por lá de forma legal, sem invadir a propriedade.
Eu já sabia que a fazenda era da Ciser (industria de parafusos de Joinville), mandei um e-mail p/ o fale conosco do site deles e recebi de resposta o e-mail da Michele, que trabalha na Hacasa. Ela foi super solícita, e nos enviou a autorização sem problemas.
Então pessoal, quem quiser repetira a façanha já sabe, envie um e-mail p/ a Michele (Michele.neotti@hacasa.com.br) com nome RG e CPF que ela manda a autorização. Depois é só imprimir e entregar para o capataz da fazenda, que abre a porteira p/ estacionar as viaturas dentro da propriedade. Fazendo assim sempre teremos acesso aquele lugar abençoado.
A previsão do tempo não era das melhores, chuva no domingo, mas fomos assim mesmo. A turma se animou com a caminhada menos puxada  (lembra do desnível de +/- 1.100m?) e participou em peso, fomos em 18 pessoas. Estávamos em dois jipes (meu e do Getúlio) e três carros “normais”. Já sabíamos que a estrada serra acima era um pouco encardida, por isso a necessidade dos 4x4.




Na ida, com tempo seco, foi tudo bem. Apesar de algumas subidas mais cabeludas todo mundo chegou bem na fazenda. Mas na volta....
Autorização na mão, paramos as viaturas no início da subida do Bradador (também conhecido como morro da Antena), dentro da Faz. Alto Quiriri.
Últimos ajustes nas mochilas e começamos a trilha (na verdade a estrada de manut. da antena) que fica a esquerda da porteira. Subida livre e desimpedida, como toda a caminhada nos campos do Quiriri. Essa é uma característica muito legal de lá, caminhar sempre por campos de altitude, com visual desempedido... a não ser quando as nuvens baixam, o que é uma constante na região, que fica próxima ao litoral.




Chegando ao cume do Bradador começa  a descida pela face norte do mesmo, descida forte...
Miguel, que foi apenas fazer um ataque e iria voltar no mesmo dia, foi na frente, pois estava leve e a galera toda de cargueira.
Na descida do Bradador avistamos um animal que não conseguimos identificar; parecia uma fuinha, com o corpo comprido, pelo preto e farto e grande rabo. Serginho, que estava mais próximo do bicho disse que ele tinha cara de gato... Thomas conseguiu fazer uma filmagem da encosta do Bradador, eu já estava na subida do morro subseqüente aguardando o pessoal. Todos viram o bichano pulando pelo campo, pois o primeiro que o avistou  avisou no rádio. O mesmo rádio que nos salvou mais tarde...
Na descida tivemos uma baixa; Ingrid torceu o pé acabou retornando, com Thomas e Miguel . Agora éramos 15.



A caminhada prossegue sentido nordeste, em direção do Morro Padre Raulino. A trilha p/ a Pedra da Tartaruga fica no vale a direita dele, mas o Jopz que estava na frente e sem o GPS seguiu o caminho que ele já tinha feito tempos atrás (ou o que ele achava que tinha feito), e pegou o vale a esquerda do Pe. Raulino.
Aqui entra o Vale Encantando na nossa história...ou melhor, nós entramos no Vale Encantado!!! Eu já tinha conhecimento deste lugar através dos relatos do Jorge Soto e do pessoal do CPM, inclusive tínhamos até cogitado ir lá ao invés do marco da divisa, mas tinha ficado pra próxima. E sem querer chegamos nele. No início ninguém se tocou que “aquele” era o Vale Encantado, mas depois na reunião da AMC revendo as fotos começamos a discutir se era ou não... chegamos a duas conclusões: era o Vale Encantado mesmo e todos os vales de lá são encantados.






Pausa p/ almoço a beira do riacho, perto de uma pequena cachoeira. Tínhamos que voltar p/ a P. Tartaruga, isso queria dizer que precisávamos voltar para o sul. O GPS e mapas nos indicavam que ela estava próxima, do outro lado da crista serrana que se estendia do Pe. Raulino sentido oeste-leste.
Bom, agora que sabemos aonde fica o Vale Encantado só falta voltar lá p/ explorá-lo até o final, e a Pedra da Divisa que fica lá perto, próxima trip no Quiriri  com certeza.
Subimos a encosta a direita do rio e quando chegamos no alto o vale do outro lado está completamente debaixo de nuvens, visibilidade de 10 metros, nem isso. Jopz e Zeca que subiram na frente chegaram a avistar a P. Tartaruga do outro lado do vale, numa abertura rápida das nuvens. Eles decidem seguir na frente, enquanto esperávamos o resto do pessoal se reagrupar.  Eles vão ver se lá embaixo do vale tinha água e um lugar p/ acampar. Nesta hora o radio foi fundamental, pois como nossa visibilidade era pouca, Zeca foi nos guiando pelo rádio relatando por onde era a trilha, enquanto Jopz ficava apitando lá embaixo do vale para nos ajudar a achar o caminho.
Chegamos num pequeno riacho ainda dentro da nuvem. Nova pausa p/ descanso. Uma parte turma vai na frente pra ver se acha um lugar melhor pra acampar, pois já tem gente que queria arriar por ali mesmo. Neste meio tempo as nuvens se dissipam e temos nossa primeira visão da Pedra da Tartaruga, logo ali!!! É só atravessar o vale pra chegar lá. Que lugar lindo... o vale e a Pedra da Tartaruga em cima do morro...





Resolvemos subir e acampar lá em cima, bem a lado da pedra. Foi uma decisão por um lado boa (no vale tinha muito mosquito!), mas por outro lado ficamos num lugar bem exposto. Tudo bem, não estava chovendo mesmo...o tempo começou a fechar e a chuva veio próximo das 18:00hs, choveu forte e com bastante vento... eheheh
A chuva deu uma Trégua lá pelas 20:00hs. Resolvemos fazer a famosa polenta campeira do Getúlio. Começamos a separar os apetrechos, preparar a cozinha quando....... começa a chover novamente!!! Polenta abortada, cada um voltou pra sua barraca pra não sair mais. A noite foi com pancadas de chuva esparsas e rajadas de vento.
Acordamos no domingo com tempo aberto e começamos a desmontar acampamento logo após tomarmos o café da manhã e muitos cliques. Quando estamos com quase tudo pronto volta a chover forte, e continua mais fraco durante quase toda a volta, volta esta pela trilha de acesso P. Tartaruga – Bradador, aquela que era pra gente ter ido... Como o tempo estava ruim abortamos a ida ao marco da divisa e voltamos direto pro Bradador.





Em cima do Bradador tivemos uma visão ampla do litoral paranaense e catarinense. Avistamos a Baia de Guaratuba, Caiobá, Guaratuba, Barra do Saí (divisa PR/SC no litoral) e até a Ilha do Mel.
A volta seria normalíssima se não fosse a chuva... a estradinha estava um sabão, com muito barro mole. Os carros baixos sofreram no começo, até que numa subida maior não teve jeito, tivemos que rebocar com os jipes. E a descida foi pura adrenalina, com os jipes sambando na estradinha, imagina os carros...
Quando chegamos na BR-376 encostamos no primeiro posto p/ comer a costela que tinha sobrado do almoço no restaurante.  Depois nos despedimos e voltamos para Curitiba.
Esta foi minha segunda vez no Quiriri, e já estou programando a próxima, que lugar fantástico. Achei o Alto Quiriri (a porção norte,  acima da Faz. Alto Quiriri) mais bonita que parte sul, do Monte Quiriri p/ até o Monte Crista. Se for pra escolher um, escolho o norte.







Ainda tem muita coisa pra fuçar por lá, e o Vale Encantado com certeza será o primeiro deles. Pedra da Divisa, marco da divisa, Morro Pe. Raulino, Morro Iquririm (que é o mais alto da região com  1.538m), a subida do queijo que sai no vale da P. Tartaruga.......... que Deus me de pernas e disposição para conhecer todo aquele lugar abençoado.

Travessia Garuva - Monte Crista jun/2011


Relato a seguir uma expedição realizada no feriado de Corpus Christi (23/06 a 26/06/2011) à região da Serra do Quiriri.
 O LUGAR
A Serra do Quiriri, outrora conhecida como Serra do Iquererim (ou Iqueririm) e também chamada de Serra Feia (que, diga-se de passagem, de feia não tem nada), localiza-se na região nordeste de Santa Catarina, fazendo divisa com o estado do Paraná, constituindo-se no último trecho da Serra do Mar na região sul do Brasil. Trata-se de uma área circundada por montanhas rochosas, interligadas por uma grande extensão de campos de altitude entrecortados pelas nascentes de vários rios, dentre os quais se destacam o Sete Voltas, o do Cristo, o Três Barras, Palmital, Pirabeiraba, Braço, Bracinho, Garuva, o Rio Negro e o próprio Rio Quiriri.
Há controvérsias sobre as origens e significados do nome quiriri. Há quem atribua a origem do nome a uma ave típica da região, o Siriri, que emite um canto que soa como qui-ri-ri. Outra origem aceita é que o nome seria uma homenagem a um antigo pajé de uma tribo da região. No entanto, o significado mais difundido vem do vocábulo tupi-guarani ”kyrirá” que também admite várias interpretações, como silêncio ou paz noturna, lugar silencioso, lugar sagrado ou ainda lugar encantado.
Trata-se realmente de um lugar encantado. A região abriga algumas das mais bonitas paisagens do estado de Santa Catarina. Alterna montanhas, afloramentos rochosos, paredões, vales profundos e de vegetação espessa, campos de altitude, nascentes, riachos, cachoeiras e vistas espetaculares de cidades como Garuva, Itapoá, da Baía da Babitonga e da Ilha de São Francisco.
ANTECEDENTES
Há bastante tempo, observando as montanhas a partir da BR-376/101, que liga Curitiba a Garuva e Joinville, surgiu a curiosidade de conhecer a região da Serra do Quiriri, mas por um motivo ou outro ela não se materializava em uma investida concreta. Há pouco mais de um ano, retornando ao montanhismo após uma temporada de mais de 8 anos de sedentarismo, voltei a alimentar o desejo de conhecer a região da Serra do Quiriri e arredores. Relatos como os dos companheiros Divanei, Jorge Soto e Tiago Korb atiçaram ainda mais esta curiosidade, mas continuava me faltando companhia para a empreitada, já que a minha antiga trupe para estas aventuras se dispersou há mais de 10 anos.
A situação tomou um novo rumo depois que me registrei aqui no Mochileiros.com e comecei a me corresponder com outros membros com interesses comuns, como os companheiros Otávio Luiz, de Curitiba (PR), que também vinha manifestando há algum tempo vontade de trilhar aqueles caminhos e Tiago Korb, de Santa Maria (RS), que já havia empreendido duas travessias na região. Em cerca de 3 meses de mensagens trocadas, idéias, estudo, planejamento, materiais como cartas e trilhas de GPS reunidas, chega a fase de realização. Nesse meio tempo o Otávio me apresentou a um grupo de montanhistas bastante especial, a AMC – Associação Montanhistas de Cristo e o projeto passava a tomar forma no âmbito da associação, com o apoio e participaçãoativa de seus membros. Definida a data, que seria o feriadão de Corpus Christi, de 23 a 26 de junho de 2011, passamos a discutir as rotas possíveis, definir o grupo e acertar os detalhes logísticos da operação.
OS PLANOS
O que inicialmente vinha sendo concebido para ser um grupo de 6 a 8 pessoas desdobrou-se  em dois grupos, um com 8 e outro com 10 pessoas, que fariam duas rotas distintas mas convergentes. O grupo 1 (“Grupo Araçatuba”), menor e mais preparado fisicamente, partiria de Tijucas do Sul (PR), da localidade de Matulão, cruzando a Serra da Papanduva pelo Monte Araçatuba e faria a travessia completa de norte a sul, que culminaria na descida do Monte Crista. O grupo 2 (“Grupo Garuva”) subiria a trilha do Monte Garuva partindo da BR-101 na cidade de Garuva (SC) e faria a rota em direção ao Monte Quiriri atacando do alto os cumes da região pelo caminho, como o Garuva, o Jurema, a Pedra do Lagarto, o próprio Monte Quiriri, o Bradador e a Pedra da Tartaruga, retornando depois pela trilha do Monte Crista. A idéia era que os dois grupos estabelecessem contato e se encontrassem no alto da serra, provavelmente no terceiro dia ou na terceira noite. Ambos os grupos contariam com cartas topográficas da região, navegadores GPS e rádios Motorola Talk About.
A logística da expedição incluiria o transporte do Grupo Araçatuba de Kombi até o ponto de partida, no sítio aos pés da Serra da Papanduva. Esta mesma Kombi (do companheiro Guilherme - AMC) depois faria o resgate do pessoal no início da trilha do Monte Crista, ponto final da pernada, no domingo à tarde. O Grupo Garuva se deslocaria em 4 ou 5 carros até o ponto inicial da trilha de subida do Monte Garuva, próximo da BR-101, logo após o trevo de acesso da cidade de Garuva (SC) e no retorno a idéia era obter um taxi para transportar alguns integrantes do grupo de volta a seus carros, numa distância de aproximadamente 10,5 Km seguindo pela BR-101, que depois retornariam com os veículos para resgatar os demais, bem como o equipamento. Ambos os grupos partiriam juntos de Curitiba, na quinta-feira, dia 23/06, às 6:00 e seguiriam juntos até a Represa do Vossoroca, onde ocorreria a separação do comboio.
O RELATO DA TRIP
PRIMEIRO DIA – QUINTA-FEIRA, 21/06/2011
Com tudo planejado e acertado na semana anterior ao tão aguardado evento, restava apenas acompanhar a previsão do tempo e torcer por condições metereológicas favoráveis para o trekking no feriado. Desde o dia 18/06, as previsões eram de tempo instável na região, com possíveis chuvas previstas já para terça (21) e quarta (22) em Curitiba e na maior parte do PR e SC. Com a evolução metereológica, porém, as chuvas de terça e de quarta-feira em Curitiba não se cumpriram, mas as previsões de quarta-feira (22) continuavam indicando chuvas na região de Curitiba e Garuva para o feriado, projetando tempo bom apenas na sexta-feira (24). Essas previsões metereológicas desanimadoras aliadas a outros fatores causaram algumas “baixas” aos grupos expedicionários na véspera da incursão: uma no Grupo Araçatuba e três no Grupo Garuva.
Na madrugada de quinta (23) uma fina garoa sobre o frio curitibano marcava o início do feriado. Na chegada ao portão principal do Jardim Botânico às 5:20, ponto de encontro dos grupos, apenas 4 pessoas já aguardavam. Logo vão chegando outros integrantes da expedição. Alguns minutos mais e ficamos sabendo que a “Kombrosa” com o pelotão principal do Grupo Araçatuba vai se atrasar por conta de um pneu furado. Quase 6:30, com a chegada da Kombi os grupos se completam. Foto no escuro mesmo para documentar a partida e pé na estrada!

O comboio pára no último posto da rodovia antes da represa do Vossoroca para um desjejum rápido daqueles que não haviam tomado café. Pouco depois, na estrada, os grupos se separam, cada um seguindo para os pontos de partida previstos inicialmente.
Nosso grupo, o Garuva, viaja praticamente 100 Km desde Curitiba até a cidade de Garuva, com a estrada relativamente tranquila. O pequeno comboio de 3 carros e 1 jipe toma uma pequena estradinha de saibro logo após o trevo de acesso que adentra menos de 1 Km em direção à vegetação fechada da encosta da serra até terminar em frente a algumas casas humildes, onde somos recebidos por alguns simpáticos moradores com os quais acertamos os detalhes para o estacionamento dos veículos. Já são quase 9:00 da manhã de quinta-feira.

Pequena pausa para acertar as mochilas, calçar botas e polainas e quase temos mais duas baixas: com o tempo nublado, quase garoando, Thomas e Ingrid balançam. Por pouco não entram no carro e voltam. Por fim, depois de alguns momentos de hesitação e uma estudada no céu resolvem seguir caminho. Todos prontos, nova foto e pé na estrada com as cargueiras nas costas. São 9:10 e partimos da cota dos 30 m.
A trilha para o Monte Garuva inicia no fim da estradinha onde ficaram os carros. A estrada dali vira uma trilha larga e limpa que vai adentrando na mata e subindo levemente. Pouco a pouco a trilha vai galgando a encosta e ficando mais íngreme, mas ainda bem larga e relativamente limpa. O peso das mochilas com as provisões para 4 dias começa a se fazer sentir e pouco mais de uma hora depois do início da caminhada fazemos a primeira parada rápida para descanso, beber e comer algo.

Seguindo a trilha, pouco adiante, começamos a escutar barulho de água corrente e, ao passar por um tronco caído à direita da trilha encontramos uma trilha menor que desvia da trilha principal e desce em direção ao som de água, que fica cada vez mais forte. Largamos as cargueiras no tronco e seguimos o desvio, afinal teríamos que nos abastecer de água para a jornada, e após a curta descida pela trilhinha secundária nos deparamos com uma bela cachoeira. Pela carta trata-se do Rio da Onça. Cantis e garrafas abastecidos, pausa para se refrescar (o calor já começa a se fazer sentir) e depois de algumas fotos e alguns sustos devido aos escorregões nas pedras perto da água, estamos novamente na trilha principal com as mochilas nas costas, já ultrapassando a cota dos 400 m de altitude.

A subida começa a se tornar mais puxada e o ritmo vai diminuindo. Roger e Gleici que estavam com a bagagem mais “desajeitada”, por assim dizer, começam a sofrer um pouco para carregá-la, sendo obrigados a algumas paradas extras para ajeitar a carga. Todos sentem o calor e a trilha vai ficando mais fechada. Meu fôlego, prejudicado pelos quilos extras de banha também começa a diminuir.
A cerca de 2 horas do tronco caído que marca a trilha para a cascata onde havíamos nos abastecido de água nos deparamos com um tremendo buraco, com cerca de 1 m de diâmetro e uns 4 de profundidade, bem num ponto em que a trilha apresenta um pequeno degrau e ao mesmo tempo apresenta um estreitamento, na cota dos 674 m de altitude. Dado o perigo que aquele buraco representa para um caminhante menos atento, Thomas e Roger tentam limpar um pouco as laterais da trilha com a faca, cortando um pouco de capim e galhos, de forma a reduzir o risco de um acidente, já que com a trilha mais fechada a tendência seria passar naturalmente por cima do dito buraco sem percebê-lo, especialmente no escuro. Após algum esforço braçal a situação ao redor do buraco melhora um pouco, facilitando sua visualização, ainda que em pouco tempo a tendência seja ele voltar a ficar encoberto pela vegetação das laterais da trilha.
A partir deste ponto a trilha vai se mostrando cada vez mais difícil. Trechos estreitos, lances de escalaminhadas para vencer barrancos com raízes de árvores e barrancos enlameados começam a se tornar freqüentes, aumentando o desgaste físico do grupo. Eu, com o sobrepeso do sedentarismo sinto mais do que os outros o cansaço e em vários momentos sou obrigado a parar por alguns minutos para recuperar o fôlego, atrasando o grupo que acaba parando também adiante para me esperar.
Logo atingimos um ponto da trilha que apresenta uma sucessão de grandes pedras, ora formando pequenas grutas ora nos obrigando a realizar alguns malabarismos para ultrapassá-las e continuar na trilha. Aqui o GPS indica a cota dos 853 m e já passam das 14:00.

A moral do grupo é muito boa. Apesar do desgaste físico, seguimos conversando, algumas piadinhas, risadas e continuamos firme, agora com a certeza de que não atingiremos nosso objetivo planejado para o primeiro dia, que era acampar após o cume do Monte Garuva. A trilha continua fechada, os bambuzinhos e galhos teimam em se enroscar nas mochilas e tornam a progressão bastante cansativa. Em nenhum momento até aqui tivemos visão aberta para os cumes da serra ou para o terreno abaixo de nós, pois a trilha é bem fechada e não nos deparamos ainda com nenhuma clareira.
Após mais alguns trechos de barrancos e escalaminhadas, atingimos na cota 950 uma pequena elevação de onde se tem visão em direção ao alto da serra, porém com o tempo fechado pelo nevoeiro a visibilidade era limitada. Enxergávamos algumas cristas próximas mas sem visão dos cumes. Neste ponto fizemos uma pausa mais longa para descanso, alimentação e deliberações, já que passava das 15:00 e ainda estávamos muito longe do cume do Monte Garuva, o que fatalmente nos levaria a acampar no platô localizado logo acima de nós, na cota 980 m, pois não teríamos muito tempo de claridade. Como agravante, consumimos bastante água durante o trajeto e precisaríamos ainda procurar água nas proximidades do referido platô.

Subimos um pequeno trecho descampado e atingimos o tal platô onde começamos a montar as barracas. Eu, Otávio e Mageta pegamos as garrafas da turma e descemos por uma trilha bem batida em sentido noroeste do ponto de acampamento, em direção a um vale, de onde provinha um forte barulho de água corrente, o que indicava um ponto de captação. Ledo engano. No final da dita trilha nos deparamos com um riacho correndo quase que subterrâneo em meio a muitas pedras altas, sem condições de alcançar a água. Voltamos e tentamos seguir pela trilha principal em direção ao Monte Garuva para ver se encontrávamos algum ponto de água mais adiante, já que havia um pequeno vale entre o platô e a crista que sobre em direção ao cume, sem sucesso. Decidimos voltar e descer a trilha em sentido contrário, pois logo abaixo do platô, onde descansamos pouco antes, tínhamos avistado uma trilha secundária em direção a um vale onde imaginávamos encontrar água. Após ingressarmos nesta trilha e descer por uns 10 minutos começamos a escutar um som leve de água corrente. Bingo! Logo atingimos uma pequena cascata onde o precioso líquido escorria pelas pedras formando um pequeno riacho. Bebemos, nos lavamos e abastecemos todas as garrafas.


Ao voltar ao acampamento, as barracas do Thomas, Roger e Gleici já estavam praticamente montadas e nos juntamos à faina de armar acampamento. Logo escureceria e começou a cair uma fina garoa, suficiente para molhar a roupa e as barracas. Em pouco tempo estávamos confortavelmente instalados nas barracas e agasalhados, pois o frio já castigava.
Pouco mais tarde, já escuro, a garoa cessara e começamos os preparativos para o jantar. Comida quente na montanha é indispensável para repor as energias e manter o moral elevado, além que nos esquentar. Cada um havia levado diferentes opções de cardápio e por cerca de 1 hora utilizamos a providencial cozinha natural existente próxima às pedras que guarneciam o local. Logo de cara percebemos que não éramos os únicos habitantes do platô: uma cuíca, pequeno animal marsupial com cerca de 20 cm de comprimento rondava nossas panelas em busca de comida sem se incomodar com a nossa presença, provavelmente acostumado com os freqüentes acampamentos naquele local, pois se tratava, infelizmente, pela quantidade de lixo, de um ponto bastante freqüentado por farofeiros. Após alguns incidentes e objetos lançados para assustar o animal todos jantam e ficamos ainda conversando e brincando com uma lanterna de luz laser que o Roger tinha com ele, não sem antes deixar alguns restos de comida para a cuíca saciar sua fome e não nos perturbar nas barracas. O Thomas consegue, depois de algumas tentativas frustradas dos outros, capturar uma imagem do bichinho. Como havia sinal de celular fazemos as devidas ligações para dar sinal de vida às famílias em Curitiba e tentamos um primeiro contato com o pessoal do Grupo Araçatuba, por celular e por rádio, sem sucesso. Logo, todos cansados e de pança cheia se entregam a morfeu. O dia seguinte seria longo e desejávamos começá-lo cedo.
SEGUNDO DIA – SEXTA-FEIRA, 22/06/2011
Após uma ótima noite de sono, um pouco fria mas tranqüila, somos brindados com a espetacular cena do amanhecer sobre o mar de nuvens que se descortina no horizonte à frente de nossas barracas. As fotos dizem tudo!




Também o alto da serra fica visível e avistamos pela primeira vez os cumes dos Montes Jurema e Garuva, respectivamente, como se vê nas fotos abaixo:


Após apreciar e fotografar a vista especial, tomamos nosso desjejum e iniciamos os preparativos para continuar a subida, que não contaria mais com a companhia do Roger e da Gleici, que nos deixariam logo mais e desceriam por conta de compromissos em Curitiba. O grupo fica agora reduzido a 5 pessoas.
Atrasamos um pouco para guardar a tralha e nos despedirmos do casal que descerá. Começamos a subir em direção ao Monte Garuva apenas depois das 9:30. Este trecho de trilha entre o platô e o alto da serra encontrava-se bastante fechado e exigiu bastante paciência para sua transposição, já que a quiçaça de galhos e bambuzinhos insistia em se enroscar nas nossas mochilas, braços, pernas e pescoços. Na verdade esta porção da trilha após o platô encontrava-se bem mais fechada que o trecho percorrido no dia anterior. Começamos a ter uma trégua em relação ao mato apenas na cota dos 1050 m, após 1:30 de caminhada e uma ascensão de mais de 280 m pelo mato, já que a trilha após o platô do acampamento desce até a cota 763 para depois voltar a subir. De uma pequena clareira na cota 1062 avistamos o platô onde havíamos acampado na noite anterior.

Deste ponto em diante a situação da trilha começa a melhorar. O mato fechado vai sumindo e dá lugar, paulatinamente a uma macega baixa e depois a campos de altitude, que agora seguem as curvas de nível e contornam o cume do Monte Garuva pela sua esquerda (para quem se aproxima subindo). Cerca de 13:15 atingimos o cume aos 1292 m de altitude, praticamente sem vista pois a neblina que se assentava pela manhã sobre acidade de Garuva começa a subir em direção ao alto da serra, juntando-se logo mais com outra massa de nuvens que avançava sobre os campos vindo do norte.




Pausa para alimentação e descanso aproveitando os últimos raios de sol (cheguei a dar um rápido cochilo deitado no campo) e uma hora depois já estamos descendo a rampa em direção aos campos do alto da serra que nos levariam até as imediações da Pedra do Lagarto. Apesar de próximos, desistimos de ir até o cume do Monte Jurema em razão de nosso atraso na subida, ademais a direção que pretendíamos seguir era a oposta.
A caminhada nos campos, com trechos de descida rende bem mais que a subida pelo mato da manhã e rapidamente avançamos vários km, ultrapassando por duas vezes afluentes do Rio do Cristo, onde fizemos pequenas pausas para descanso e reabastecimento de água. Neste trecho, em meio ao silêncio do alto da serra, nossas conversas na beira do riacho atraíram a atenção de uma dupla de trekkers perdidos: pai e filho, acampados nas imediações do Monte Crista (bem longe dali) saíram em direção ao Monte Quiriri e se perderam no retorno por causa da cerração e apareceram para pedir informações. Após um rápido papo com a dupla Otávio, nosso líder e primeiro navegador, orientou a dupla usando a carta topográfica da região e o GPS. Este exemplo prático ressalta o fato de que o alto da Serra do Quiriri com nevoeiro (sem as referências visuais), que pode baixar (ou subir) de uma hora para outra, é um lugar de difícil navegação já que é cortada por inúmeras trilhas que desafiam o senso de orientação mesmo dos caminhantes mais experientes.




Depois de quase uma hora de caminhada pelos campos serra acima com o nevoeiro ficando mais denso a cada minuto, já por volta das 17:00, subindo pela trilha em direção ao Monte Quiriri, por uma pequena crista ao lado de um riacho coberto de vegetação num pequeno vale, ouvimos vozes de um grupo de se aproximava pelo lado oposto do rio. Como se distinguiam também vozes femininas no grupo, que parecia rumar em nosso encontro, pensamos que poderia se tratar do Grupo Araçatuba, liderado pelo Zeca, que estaria descendo da Pedra da Tartaruga ou do próprio Monte Quiriri. Em meio ao denso nevoeiro chamamos pelo nome do Zeca, sem resposta, apesar de escutar os rumores do grupo, cada vez mais próximo. Depois de mais alguns gritos em meio à neblina, separados por algo em torno de 50 m pelo pequeno vale e sem conseguir contato visual por causa da forte cerração, estabelecemos diálogo com o pessoal e descobrimos que se tratava do grupo guiado pelo Jopz que havia subido no dia anterior pela trilha da fábrica de queijo (SantPar), ascendido à Pedra da Tartaruga e dali pretendia descer pela trilha do Monte Garuva. Eita mundo pequeno!! Trocadas algumas breves palavras sobre as condições das trilhas percorridas por ambos os grupos, em que o Jopz descreveu a subida pela trilha do queijo como “inferno verde”, nos despedimos e seguimos viagem.
Pouco acima, dada a distância que ainda faltava para atingir o Monte Quiriri e o avançado da hora, decidimos abortar a subida até lá e derivamos por uma trilha menos batida que descia levemente seguindo as curvas de nível pouco abaixo da Pedra do Lagarto (isso tudo verificado no GPS, já que praticamente não enxergávamos nada). Para piorar um pouco a situação começava a cair uma fina garoa.
Algumas centenas de metros adiante, seguindo esta mesma trilha, depois de um morrote encontramos um novo curso d’água correndo sobre um trecho de lajes de pedra que tinha ao lado um conveniente platô na cota dos 1294 m, aparentemente protegido, onde decidimos montar acampamento já praticamente na escuridão, às 17:50.
Armado acampamento sob a garoa, o povo cansado, com sede e com fome se recolhe e começam os preparativos para a janta nas 3 barracas. Tentamos novo contato por rádio e celular com o Grupo do Zeca, novamente sem sucesso. Em nossa barraca, eu e o Mageta preparamos a “área de serviço” (avanço da barraca TR Esquilo 2 – com a porta aberta escorada pelos bastões de caminhada) para poder cozinhar. Com a panela no fogareiro descobrimos novamente que não éramos os únicos habitantes da área: um camundongo quase entrou na barraca para ver o que cozinhávamos e começamos a imaginar o que fazer para evitar que ele e eventualmente outros membros da sua família não invadissem nossa barraca e roessem nossas mochilas em busca de comida. Decidimos, sensatamente, empanturrar o ratinho com alguma comida a fim de fazê-lo desistir de qualquer incursão em nossas coisas: deixamos uma lata de patê de atum aberta a alguns metros longe da barraca e ainda jogamos algumas pequenas porções de comida espalhadas longe das barracas para atrair a atenção dos roedores. A tática funcionou e não tivemos nenhum sinal do(s) bicho(s) durante a noite. As porções de comida sumiram e descobrimos que ele não gostava de patê de atum, pois a lata do refinado alimento restou intacta.




TERCEIRO DIA – SÁBADO, 23/06/2011
Após a nossa deliciosa e reforçada janta, que teve no cardápio arroz à grega, picadinho de carne, batata, omelete e arroz branco (liofilizados), dormimos com os anjos e acordamos no outro dia já um pouco tarde, depois das 7:30, com céu e horizonte encobertos mas logo a neblina foi cedendo e revelou belas paisagens do entorno, como se pode ver nas fotos do Thomas, que acordou mais cedo que os demais neste dia e conseguiu captar algumas fotos com vista para a Baía da Babitonga.
Depois de algumas fotos, uma esticada na soneca (manhã fria + tempo encoberto) e um rápido desjejum, começamos a ajeitar a tralha para levantar acampamento, o que incluía lavar os pratos e panelas do jantar da noite anterior. Nesta faina, eu que estava meio sonolento e lerdo acabei atrasando o restante do grupo, que já me esperava de mochilas prontas, especialmente o Otávio, sempre o primeiro a ensacar sua super-ultra-mega light barraca MSR. Com isso deixamos o local de acampamento depois das 10:30, com um céu ainda encoberto por muitas nuvens mas que já dava sinais de que teríamos um ótimo dia pela frente.
Com o horizonte se abrindo graças à evolução favorável das condições metereológicas, cada minuto da caminhada neste terceiro dia da expedição, revelava detalhes do relevo e da geografia da região que não nos foi possível visualizar nos dias anteriores. Pelo resto da manhã caminhamos de frente para o trecho de serra onde se avistavam as costas dos cumes dos Montes Garuva e Jurema, por onde passamos no dia anterior sob o denso nevoeiro. Logo também avistamos no horizonte aquele que seria em breve o nosso destino, o Monte Crista, com seus 967 m de altitude.


À medida que caminhávamos naquele dia de sol, com os horizontes abertos à nossa volta, percebemos a beleza e a amplitude daquela tranqüila região de campos e serras. Às nossas costas a visão da Pedra do Lagarto se sobressaía, marcando nosso ponto de partida naquela manhã, enquanto à nossa frente, quase sempre descendo, erguia-se imponente o Monte Crista, que iríamos transpor no dia seguinte para concluir nossa jornada. Pelo caminho, o silêncio e a contemplação daqueles espaços praticamente intocados que cruzávamos nos deleitavam os olhos e a mente.



Breve pausa para o lanche-almoço de trilha e logo a descida se acentua, baixando a cota dos 1060 m. Começamos então a avistar a “cabeluda”, como é chamada a área de acampamento próxima das cachoeiras do Rio Três Barras, onde podíamos avistar algumas barracas.
Neste trecho encontramos um caminhante solitário que subia veloz em direção ao Quiriri e que fazia, segundo ele, a travessia Monte Crista – Araçatuba. Infelizmente acabamos não registrando o nome do aventureiro.
Ao nos aproximarmos da área de acampamento nos deparamos com algumas cenas tristes ao nos depararmos com a grande quantidade de lixo ali deixada pelos frequentadores do local. Travamos contato com alguns dos acampados na área, alguns inclusive levantando acampamento. Como ainda era relativamente cedo, cerca de 14:30, e o calor intenso, nossos planos passaram a incluir a descida até as cachoeiras do Rio Três Barras a fim de nos refrescarmos e depois voltar e caminhar o máximo possível em direção ao Monte Crista, buscando um ponto de acampamento mais avançado em relação ao nosso caminho de volta.






Interessante notar que ali na “cabeluda” já se encontram trechos do calçamento do antigo Caminho de Três Barras, também conhecido como Caminho dos Ambrósios, antiga rota colonial que ligava São Francisco do Sul ao planalto Curitibano bem antes da existência da atual rota seguida pela rodovia. Seu calçamento provavelmente foi assentado nos idos de 1740 conforme apontam vários registros históricos, provavelmente aproveitando antigos caminhos indígenas.

Chegando margens do Rio Três Barras após uma curta descida por um trecho de trilha bem acidentada o banho teve que ser rápido. Inobstante o calor, não era possível aguentar mais do que 3 minutos seguidos dentro da água gelada, que transmitia uma sensação térmica de 3 ou 4 graus. Com o sol já se escondendo o difícil foi se aquecer novamente depois.


Banho tomado, com os ossos ainda doendo pelo frio da água, iniciamos a subida em direção à “cabeluda” e depois tomamos o rumo do Monte Crista, pelo caminho colonial calçado, agora em busca de água e de um ponto favorável para acampamento. Após explorar algumas fontes de água pelo caminho, às 16:50 encontramos uma clareira bem protegida a 845 m de altitude, ao lado de um pequeno riacho. Ali ficamos, já sob forte cerração.



A noite veio rápida. Barracas montadas, todos agasalhados e abastecidos do precioso líquido, começamos a preparar nosso jantar. Era a noite em que tínhamos planejado nos reunir com o Grupo do Zeca e fazer o nosso jantar coletivo e até ali não havia nenhum sinal deles. Tentamos contato mas o local onde estávamos era num baixio entre as montanhas e não havia sinal de celular. O rádio também continuava mudo.
O cardápio combinado era a polenta campeira, receita executada com polenta, lingüiça calabresa, cebola, alho e outros ingredientes (o Mageta, providencialmente tinha levado bacon em cubinhos). Fritam-se a cebola com o alho no azeite para dourá-los juntando-se a eles o bacon picado e a lingüiça calabresa cortada em rodelas para refogar. Em outra panela cozinha-se o fubá ou a polenta instantânea (como no nosso caso – temperada ainda com tomate seco) e, quando se atinge o ponto da polenta, misturam-se a ela os ingredientes refogados. Servir em seguida a polenta cremosa. O resultado disso foi que até o Otávio, que não gostava de polenta, mudou seu conceito... Além de nutritivo e muito saboroso é um prato que esquenta.
No entanto não foi a única opção de cardápio da nossa janta já que no afã de reduzir o peso a carregar no dia seguinte resolvemos gastar alguns outros alimentos que tínhamos nas mochilas. No Buffet rolou até um strogonoff de franco com batata palha da liofoods, muito saboroso, oferecido pelo Otávio. Assim, com todos muito bem alimentados, lavamos as panelas e utensílios de cozinha e nos entregamos ao mundo dos sonhos, ao menos por algumas horas.
Fomos acordados pouco depois da meia-noite com uma forte chuva que perdurou por toda a madrugada e acabou vencendo a estanqueidade de 11 anos da minha barraca Trilhas e Rumos. Eu e o Mageta acordamos algumas vezes durante a noite com pingos d’água no rosto e sentindo água no piso da barraca. As inspeções realizadas mostraram que as costuras, que eu havia re-impermeabilizado há pouco mais de 6 meses, especialmente sobre a porta, estavam com a fita termo-aderente solta e com isso deixando passar água, que pingava sobre nossos pés, dentro da barraca, o que atrapalhou um pouco o nosso sono.
QUARTO DIA – DOMINGO, 26/06/2011
Pela manhã ainda chovia. Com o chão da barraca e os sacos de dormir um pouco molhados, tomamos nosso desjejum frio dentro das barracas enquanto aguardávamos uma trégua da chuva para nos permitir desmontar acampamento, o que só ocorreu por volta das 7:30. Nesse tempo ainda tentamos novo contato com o Grupo Araçatuba, sem sucesso. Conjecturamos: “passaram à nossa frente ou vêm logo atrás de nós, não devem estar longe...”
Após conferir rapidamente nossos materiais e tentar ao máximo secar nossas barracas para o transporte correndo contra o relógio para aproveitar a pausa da chuva, entramos na trilha em direção ao Monte Crista, cujo calçamento mais parecia um leito de rio. A pequena trégua da chuva logo passou e os anoraks e capas de chuva passaram a ser exigidos. Caminhávamos agora sob uma chuva fina e gelada, batidos em alguns momentos pelo vento. A trilha era um verdadeiro riacho, alternando trechos de calçamento, barrancos, pedras soltas e barro amarelo. Assim seria praticamente todo o domingo até nossa chegada no recanto dos balneários ao final da trilha, próximo da BR-101.



Em cerca de uma hora e meia de caminhada atingimos o platô 900 do Monte Crista e dali começamos a descer. Como não havia vista e a chuva nos castigava, decidimos não fazer o cume. Dali em diante a descida da trilha virou um verdadeiro “cascading”, pois em muitos trechos éramos obrigados a caminhar dentro da água, descendo degraus que pareciam mais cachoeiras. Fez falta aqui o meu bastão de caminhada displicentemente esquecido em casa. Felizmente ninguém se acidentou e todos mantinham um bom ritmo na descida, movidos pelo frio e pela proximidade do fim da jornada.


Numa das pausas para descanso e alimentação na descida do Monte Crista, sob a proteção de umas pedras grandes, conseguimos sinal de celular e falamos com o Guilherme, que faria o resgate do Grupo Araçatuba com sua Kombi. Soubemos por ele que o Zeca ainda não havia feito contato e, preocupados, tentamos mais algumas vezes contato com eles por celular, novamente sem sucesso. Começamos a ficar preocupados. Teriam tido algum problema na travessia? Alguém machucado? Afinal eram praticamente 4 dias sem contato, inclusive com o resgate deles. Decidimos continuar a descida, até porque o frio nos castigava e não haveria nada a ser feito dali naquele momento. Começamos a pensar também na condição de travessia do Rio do Cristo no final da trilha, afinal chovera praticamente a noite toda e a chuva continuava e com as cabeças d’água no alto da serra aquele rio enche rapidamente, impossibilitando ou dificultando bastante a passagem.
Ao nos depararmos com o Rio do Cristo, percebemos que a passagem era possível. Analisamos rapidamente a situação e decidimos fazer a transposição. Primeiro Otávio e Thomas, com as mochilas, exploram o nível da água e a força da correnteza, atingindo com relativa facilidade a outra margem. Retornam descarregados para relatar o caminho e ajudar a Ingrid. Mageta também atravessa e eu, logo atrás, decido ficar sobre uma pedra com a câmera para documentar a travessia do rio. O Otávio se posiciona num dos trechos mais críticos com seu bastão de caminhada para dar apoio e ajudar a Ingrid e o Thomas, que vinha agora com a cargueira da esposa.
Na minha concentração em filmar e fotografar a travessia de dentro do rio acabo sentado numa pedra mais alta e, quando solto o peso (eu + a cargueira nas costas) quase acontece uma vídeo-cassetada que ninguém percebeu: a pedra cedeu e entrei de bunda na água gelada. A sorte que com o reflexo rápido não cheguei a submergir além da cintura (e por sorte em pé), caso contrário poderia ter molhado a câmera ou ainda pior, ser obrigado a nadar com a cargueira nas costas na correnteza, rio abaixo...
Enquanto isso o Mageta, na outra margem e numa boa, comia, bebia e dava risada...




Transposto o Rio do Cristo, restava ainda pouco mais de meio quilômetro de caminhada e nós animados por estarmos chegando ao fim do dia de perrengue.
Logo chegamos à ponte pênsil que atravessa o Rio Três Barras, derradeiro ponto de referência da nossa jornada. Aqui foi só gozação com o balanço da ponte, apesar do nosso frio e da chuva, pois logo à frente já enxergávamos o pequeno bar onde começa/termina a trilha para o Monte Crista. Este ponto, na entrada do sítio que dá acesso à ponte e à trilha dista cerca de 3 Km da BR-101 por uma estradinha de saibro que termina próximo das balanças de pesagem da rodovia, a cerca de 8,5 Km do trevo de Garuva, onde começamos nossa expedição.

Abrigados da chuva, só nos restava agora aguardar o resgate para nos levar aos veículos, que providencialmente seria o Guilherme e sua Kombi, que estava vindo de Curitiba originalmente para buscar o Grupo Araçatuba mas nos daria uma carona. Ficamos pouco menos de 1 hora na varandinha do boteco esperando enquanto tomamos um litrão de Coca-Cola, trocamos de roupa, arrumamos as mochilas e pagamos a taxa de pedágio da ponte, aproveitando ainda para conversar com a dupla da “Equipe Rumo ao Topo” de Joinville que também aguardava o seu resgate e com quem tínhamos conversado no dia anterior na cabeluda. O Mageta aproveitou ainda para tomar um banho quente num dos banheiros do local. Neste tempo tentamos novamente contatar o Zeca e outros membros do seu grupo, sem sucesso.
Com a chegada da Kombi, rapidamente nos despedimos do tiozinho do bar, dos outros trilheiros que aportaram no bar saídos do Monte Crista e da chuva e frio que nos castigaram no domingão. Carregamos as mochilas embarcamos para Garuva, de volta ao ponto onde deixamos nossos carros 4 dias antes. E dá-lhe chuva na rodovia. Trânsito complicado. Retorno de feriadão na BR-101 é sempre um exercício de paciência. Cerca de meia hora de estrada e já estávamos entregues em nossos veículos e pé na estrada para Curitiba, enfrentando o tráfego pesado da volta do feriado no retorno.



Saímos de Garuva ainda sem ter notícias do Grupo do Zeca. Depois de nos deixar em nossos carros o Guilherme voltou com a Kombi para o balneário onde nos resgatou para esperar o outro grupo, conforme previamente combinado. Ficamos sabendo depois que o Grupo Araçatuba também encarou o dia todo embaixo de chuva, tendo partido naquele dia de um ponto antes da Pedra do Lagarto, no alto da Serra do Quiriri, tocando direto até o bar do ponto final, lá chegando cerca de meia hora depois que partimos com a Kombi, ou seja, estavam logo atrás da gente, pouco mais e teríamos nos encontrado ali no final da travessia...
A pernada foi espetacular, teve suas dificuldades mas foi permeada por um companheirismo excepcional. Gostaria de agradecer a todos os companheiros de pernada pela companhia, camaradagem e pelos ótimos momentos que passamos juntos. Todos foram 10! Contem sempre comigo!

DADOS TÉCNICOS (Travessia relatada - Grupo “Garuva”)
Extensão percorrida a pé: 23,5 Km
Aclive/declive acumulado: 1770 m/1799 m
Elevação máxima: 1348 m

Abraço,
Getúlio Vogetta